63 Dias Sozinho na Neve da Noruega, Com os Pés Congelados🚨
Uma explosão num fiorde do Ártico, e o barco some em fogo. Um homem está na água gelada, com uma bota só, e nada até a margem. Um oficial alemão fica no caminho dele, e ele atira pra passar. Atrás dele, onze companheiros vão ser pegos ou mortos. Ele sobe um barranco de neve sem saber pra onde vai.
Transcrição
Uma explosão num fiorde do Ártico, e o barco some em fogo. Um homem está na água gelada, com uma bota só, e nada até a margem. Um oficial alemão fica no caminho dele, e ele atira pra passar. Atrás dele, onze companheiros vão ser pegos ou mortos. Ele sobe um barranco de neve sem saber pra onde vai. Ainda não sabe, mas vai passar sessenta e três dias fugindo, com os pés congelados. E o que vai manter esse homem vivo, nesse tempo, não é só ele. São pessoas que ele nunca viu antes.
Vinte e quatro de março de mil novecentos e quarenta e três. A Noruega está ocupada pela Alemanha há quase três anos. Das ilhas Shetland, na Escócia, sai um pesqueiro norueguês, o Bratholm. A bordo vão doze homens, quatro deles comandos treinados pelos britânicos. Um é Jan Bólsrud, de vinte e cinco anos, nascido em Oslo e membro da Companhia Linge, uma unidade norueguesa ligada ao serviço secreto britânico de operações especiais. A missão, a Operação Martin, é montar redes de resistência no norte do país e destruir a torre de controle de um aeródromo alemão, em Bardufoss. Eles navegam rumo ao norte, até um fiorde da região de Troms. Não é turismo: é uma operação de guerra. E no fim deste vídeo, você vai entender por que, num frio de congelar, os pés dele eram a primeira coisa a morrer.
Trinta de março. O pesqueiro fundeia no fiorde de Tofte. Aí começa o erro que ninguém previu. Segundo o relato, um comerciante da região, assustado, sem saber se aqueles homens são mesmo noruegueses, avisa a polícia. Pouco depois, um navio de guerra alemão entra no fiorde. Os noruegueses respondem ao fogo e detonam a carga de explosivos do Bratholm, pra que ele não caia inteiro nas mãos do inimigo. O barco explode. Os homens fogem pra terra em botes, e os alemães afundam os botes. Quem chega à praia é caçado. Dos doze que embarcaram, onze não voltam. Um morre na troca de tiros. Os outros dez são capturados e mortos pelos alemães nos dias seguintes. Só um consegue sumir na neve. O nome dele é Jan Bólsrud.
Ele está ensopado, com uma bota só, no fim de março, no Ártico. Segundo um relato, dois primos adolescentes dão a ele comida, roupa seca e botas. Ele só anda à noite, e um pescador lhe empresta esquis. Mas a montanha não perdoa. Uma avalanche quebra um dos esquis, leva o outro, e leva a comida junto. Em outro momento, a neve o enterra até o pescoço. Ele passa três dias numa nevasca, sem saber onde está. Depois, segundo as fontes, quatro dias enterrado na neve, e mais cinco ao relento. Cego de neve, com fome, e com os pés duros como pedra. A rota inteira até a segurança tem mais de cem quilômetros. Pra quem anda saudável, é uma caminhada. Pra ele, é um país inteiro. E os pés dele já começaram a morrer.
Por que os pés? Quando o corpo esfria, ele faz uma escolha. Fecha os vasos sanguíneos das mãos e dos pés pra proteger o centro, o coração e o cérebro. É por isso que as pontas são as primeiras a pagar. Se o frio dura, abaixo de meio grau negativo o tecido pode começar a congelar. Com mais frio, formam-se cristais de gelo, e eles machucam os vasinhos que sobraram. O sangue deixa de chegar. Sem sangue, o tecido morre. E tem um agravante: descongelar e congelar de novo faz a lesão ficar pior. O tecido morto escurece, e a gangrena pode se espalhar. Hoje, o cirurgião espera meses antes de cortar, pra deixar o corpo separar o que morreu do que vive. A regra só muda quando há gangrena. Ele não tinha meses.
E aqui o episódio muda de dono. Até agora, era a história de um homem. Daqui em diante, é a história de uma corrente. Segundo um relato, em doze de abril, moradores o levam de barco pelo fiorde de Lyngen até uma cabana. Os dedos dos pés estão escuros, quase pretos. Ali, com o canivete, ele corta um dedão e parte de outro dedo. Ele é escondido, alimentado, levado numa maca, de mão em mão, pela montanha. Ajudar um fugitivo, sob ocupação, era um risco que cada um assumia sozinho. A enciclopédia norueguesa conta mais de setenta pessoas que ajudaram. Setenta pessoas que não tinham nada pra ganhar e muito pra perder. Entre elas, Marius Grônvold e Martin Jensen, e os dois irmãos sami que a gente já vai conhecer. A corrente o mantém vivo. Mas não traz os pés de volta.
Vale olhar o mapa, porque o número engana. De Tofte, ele passa pela ilha de Ringvassøya, atravessa pra terra firme em Lyngseidet, cruza o fiorde de Lyngen até Revdal, sobe o vale de Manndalen e chega, por fim, a Kilpisjärvi, já na Finlândia. A enciclopédia norueguesa fala em cerca de cento e vinte quilômetros, em sessenta e três dias. Fazendo a conta: menos de dois quilômetros por dia. Uma pessoa saudável, com bota seca, faria esse caminho em poucos dias. Mas ele quase não andou. Foi carregado, escondido, e esperou. Na maior parte do tempo, o que se mediu ali não foi distância. Foi espera. E cada dia parado é um dia em que alguém, em algum lugar, tinha que ficar calado. No mapa, a rota de Jan é um fio fino. A corrente de gente em volta dele é o que segura o fio.
No fim de abril, o plano de levá-lo pra Suécia falha. O encontro combinado não acontece. Ele é deixado num abrigo de pedra, e depois numa caverna na neve, no alto do vale de Manndalen. As fontes divergem no tempo: duas semanas, dezessete dias, quase um mês no planalto. Deitado, sem poder andar, ele depende de quem consegue chegar até ele. Os dedos mortos escurecem. Segundo o relato, ele mesmo corta os que restam, nove ao todo, pra gangrena não subir pelo pé. A gente não mostra isso, e nem precisa. O que importa é a conta: um homem que não pode andar, num lugar que quase ninguém acha, esperando. E contando os dias.
No fim de maio, a corrente passa o bastão. Dois irmãos sami, Aslak e Per Thomas Baal, aceitam levá-lo pra Suécia. Deitam Jan num pulk, um trenó sem lâminas, puxado por renas, e partem pela montanha, rumo à fronteira. Segundo um relato, uma patrulha alemã chega a atirar no grupo perto da divisa. Primeiro de junho de mil novecentos e quarenta e três. Sessenta e três dias depois da explosão, ele chega a Kilpisjärvi, no extremo da Finlândia, junto da Suécia. Um hidroavião da Cruz Vermelha leva Jan até um hospital em Boden, na Suécia, que era neutra na guerra: ali, os alemães não podiam ir buscá-lo. Sessenta e três dias. Mais de cem quilômetros. E, de todos os homens do Bratholm, só ele chegou.
Jan Bólsrud passa meses se recuperando no hospital sueco. Depois treina outros noruegueses na Escócia e volta à Noruega como agente. Um bombardeiro Mosquito da força aérea britânica o leva de volta à Grã-Bretanha. A guerra acaba em quarenta e cinco, e ele reencontra a família depois de cinco anos longe. Morre em mil novecentos e oitenta e oito, aos setenta e um anos. A história ficou conhecida pelo livro do inglês David Howarth, de mil novecentos e cinquenta e cinco. O título diz que a gente morre sozinho. A história que ele conta diz o contrário. Vale dizer de onde vem tudo isso. Existe o relatório que o próprio Bólsrud escreveu em mil novecentos e quarenta e três, guardado nos arquivos nacionais britânicos. Existe o livro. E existe a memória de quem o ajudou. Mas o relato dos sessenta e três dias é, em boa parte, o dele, e por isso este vídeo diz segundo o relato tantas vezes. A lição é a do frio: o corpo congela primeiro nas pontas, onde está mais longe do coração. A sobrevivência também. Quem está na ponta, no fundo do buraco, precisa que alguém saiba que ele está lá. Ela só continua porque alguém, na ponta seguinte, estende a mão. Se essa história te prendeu, se inscreve. No próximo vídeo: um marinheiro escocês largado numa ilha do Pacífico, em mil setecentos e quatro, e que ficou lá quatro anos.