4 Anos Sozinho numa Ilha: a Verdade Sobre o Robinson Crusoé🚨
Uma praia de pedra, numa ilha no meio do Pacífico. Um bote cheio de homens se afasta, remando de volta pra um navio. Na areia, um marinheiro fica olhando. Foi ele mesmo quem pediu pra ficar ali. E agora ele quer voltar a bordo. O capitão não aceita. O navio vira, e some no horizonte.
Transcrição
Uma praia de pedra, numa ilha no meio do Pacífico. Um bote cheio de homens se afasta, remando de volta pra um navio. Na areia, um marinheiro fica olhando. Foi ele mesmo quem pediu pra ficar ali. E agora ele quer voltar a bordo. O capitão não aceita. O navio vira, e some no horizonte. O nome dele é Alexander Selkirk, e ele vai passar quatro anos e quatro meses sozinho nessa ilha. Quando um navio inglês enfim chegar, os marinheiros dele vão estar doentes, e quem vai curar esses homens é a própria ilha.
Alexander Selkirk nasce em mil seiscentos e setenta e seis, em Largo, na Escócia, filho de um sapateiro e curtidor. É o sétimo filho. Ainda jovem, tem fama de indisciplinado: a igreja da vila o convoca por conduta indecente, e ele nem aparece, porque já foi pro mar. Em mil setecentos e quatro, ele é o mestre do Sink Ports, um navio pequeno, de dezesseis canhões. O navio faz parte de uma expedição de corsários, que são marinheiros autorizados por um governo a atacar navios inimigos. O capitão é Thomas Strádling, e a frota tinha saído junto com o famoso William Dâmpier. Naquele ano, o Sink Ports ancora numa ilha do Pacífico, a oeste do Chile, que os espanhóis chamam de Mas a Tiérra. É aqui que a história começa de verdade. E no fim deste vídeo, você vai entender por que essa ilha curou, em poucas semanas, marinheiros que chegaram doentes.
O navio está furado. A água entra, e os homens sabem. Selkirk discute com o capitão, e a briga é séria. Cansado do comando e desconfiado do casco, ele prefere ficar na ilha a seguir viagem naquele barco. Desce com o que tem: roupa e cama, uma arma de pederneira, pólvora, balas, tabaco, uma machadinha, uma faca, uma chaleira, uma Bíblia, alguns livros e os instrumentos de navegação. Não é pouca coisa. Mas é só isso. Quando o navio começa a se afastar, o coração dele aperta. Ele se arrepende, e pede pra voltar. O capitão não aceita. O Sink Ports vai embora, e Selkirk fica. A desconfiança dele não era à toa: o navio naufraga depois, na costa do Pacífico. O capitão e seis ou sete homens se salvam, e passam quatro anos presos em Lima. Mas isso Selkirk não sabe. Na praia, ele só sabe que está sozinho. É o mês zero.
Os primeiros meses são os piores. Segundo o capitão Woodes Rógers, que o encontra anos depois, nos oito primeiros meses ele mal consegue lutar contra a melancolia e o terror de estar sozinho num lugar tão deserto. Outro autor, o escritor Richard Steele, conta que levou dezoito meses até ele se conformar. As duas fontes divergem, e a gente fica com as duas. Seja quanto for, ele faz o que dá pra fazer. Constrói duas cabanas de madeira de pimenteira, cobre com capim comprido e forra com pele de cabra. Faz fogo esfregando dois gravetos de pimenteira no joelho. Cozinha na cabana menor, e dorme na maior. Lê, canta salmos e reza. Segundo Rógers, ele diz que foi melhor cristão na solidão do que nunca antes. Peixe, ele quase não come, porque sem sal o peixe lhe faz mal, exceto as lagostas. E bebe só água. Aos poucos, o pior passa, e a ilha começa a virar casa.
Agora, a promessa. Naquela época, a doença que mais matava marinheiros se chamava escorbuto. Ela vem da falta de vitamina C, que o corpo não fabrica, e que está em comida fresca, como fruta e verdura. Quem passa meses de biscoito e carne salgada fica sem. Segundo a Wikipédia, no século dezoito o escorbuto matou mais marinheiros britânicos do que os inimigos em guerra. Os sintomas demoram: leva pelo menos um mês sem quase nenhuma vitamina C pra aparecerem. Num experimento de mil novecentos e quarenta, um único voluntário, o médico John Crandon, ficou sem a vitamina, e só teve as primeiras hemorragias na pele depois de cento e sessenta e um dias. É um caso só, mas dá a ideia da conta: o corpo aguenta meses, e depois cobra. Agora olha o que tinha na ilha. Segundo Rógers, Selkirk comia carne de cabra, nabos que os homens de Dâmpier tinham semeado e que já cobriam um bom pedaço de terra, e repolho colhido das árvores da ilha, e temperava a carne com o fruto da pimenteira. Tudo fresco. E quando o navio de Rógers chega, é o próprio Rógers que conta: os marinheiros doentes de escorbuto se recuperam depressa, com as cabras que Selkirk caçava e as verduras da ilha. Nenhuma fonte diz que Selkirk escapou do escorbuto, e a gente não vai inventar essa frase. O que dá pra dizer é que ele morava no melhor remédio da região. A ilha era uma farmácia.
Com o tempo, a ilha deixa de ser inimiga. As cabras vieram nos navios, antes dele, e se multiplicaram. Enquanto dura a pólvora, que era só meio quilo, ele as mata com a arma. Quando a pólvora acaba, ele as pega correndo. Segundo Rógers, ele conta quinhentas que matou, e pega outras tantas, marca na orelha e solta. Numa perseguição, agarra uma cabra à beira de um precipício que os arbustos escondiam, e cai com ela, de uma boa altura. Fica desacordado. Quando acorda, a cabra está morta debaixo dele. Passa umas vinte e quatro horas ali, e dez dias sem conseguir sair da cabana. Outro problema vem de baixo: os ratos, que também vieram dos navios, roem os pés e a roupa dele enquanto dorme. A solução é uma aliança. Ele alimenta os gatos, que também vieram dos navios, com carne de cabra. Os gatos ficam mansos, deitam em volta dele às centenas, e acabam com os ratos. Ele ainda doma uns cabritos, e, pra se divertir, canta e dança com os cabritos e com os gatos. Quando a roupa acaba, faz casaco e gorro de pele de cabra, costurados com tiras da própria pele, e um prego de agulha. Quando a faca se gasta, faz outras com aros de ferro de barril deixados na praia, batidos e afiados em pedra. Os pés endurecem tanto que ele corre por tudo sem sentir.
Nesses anos, ele vê vários navios passando. Só dois entram pra ancorar. Ele vai olhar de perto, e descobre que são espanhóis. A Espanha estava em guerra com a Inglaterra, e ele serve num navio inglês. Ele recua, e os espanhóis atiram nele. Se fossem franceses, diz ele depois, teria se rendido. Mas prefere arriscar morrer sozinho na ilha a cair nas mãos dos espanhóis, porque temia que o matassem, ou que o escravizassem nas minas. Os espanhóis desembarcam, e chegam tão perto que ele quase não escapa. Perseguem ele pela mata, e ele sobe numa árvore. Lá embaixo, os homens fazem as necessidades ao pé da árvore, matam cabras ali perto, e vão embora sem olhar pra cima. É a ajuda que apareceu, e era a pior possível. Navio depois de navio, a ilha continua sendo dele, e de mais ninguém.
Quatro anos e quatro meses são cinquenta e dois meses. É o que Rógers anota, e o que Steele repete. Cinquenta e dois meses sem uma conversa. O que isso faz com uma pessoa? A pesquisa sobre isolamento prolongado tem resultados misturados, e não existe um número limpo pra dar aqui. Então vale ficar com o que o caso mostra. Primeiro, a melancolia dos oito meses, ou dos dezoito, e depois a rotina: a cabana, a Bíblia, as cabras. Segundo, a marca. Quando é achado, ele esqueceu tanto a própria língua, por falta de uso, que os outros mal o entendem, e parece falar as palavras pela metade. Terceiro, a pergunta que ninguém responde direito: ele ficava esperando o dia todo? A tradição diz que ele subia a um mirante pra vigiar o mar, e uma placa de bronze, de mil oitocentos e sessenta e nove, marca o lugar. Mas nenhum relato da época diz isso. Fica como tradição, não como fato.
Trinta e um de janeiro de mil setecentos e nove. Dois navios ingleses avistam a ilha: o Diúk e o Dútchess, sob o comando de Woodes Rógers, outro corsário. O piloto do Diúk é aquele William Dâmpier, que já tinha estado ali. Na noite seguinte, os marinheiros veem uma luz em terra. É a fogueira de Selkirk, que viu os navios e achou que eram ingleses. No dia dois de fevereiro, o bote volta com lagostas e com um homem vestido de peles de cabra, que, nas palavras de Rógers, parecia mais selvagem do que os primeiros donos daquelas peles. Oferecem uma dose de bebida, e ele recusa: só bebia água. Demora a aceitar a comida deles. Demora a voltar a usar sapatos. Rógers o contrata na hora, como imediato. E em pouco tempo ele vira o governador da ilha, como Rógers o chama: caça duas ou três cabras por dia pros doentes do navio. Rógers conta que ele cansou um cachorro e os homens correndo, pegou as cabras, e trouxe nas costas. Quatro anos e quatro meses depois, ele estava em forma.
Selkirk é imediato, e depois mestre de uma das presas do Diúk, o Íncrise. A expedição de Rógers dá a volta ao mundo, e chega ao Tâmisa em outubro de mil setecentos e onze. A história vira assunto: Rógers publica o relato em mil setecentos e doze, e Richard Steele conta o caso no jornal em mil setecentos e treze. Em mil setecentos e dezenove, Daniel Defoe publica Robinson Crusoé. O personagem lembra Selkirk, mas a ilha de Crusoé fica no Caribe, a milhares de quilômetros, e a maioria dos estudiosos hoje aceita que Selkirk foi só uma das muitas histórias de sobrevivência que Defoe conhecia. Então chamar Selkirk de Robinson Crusoé de verdade é exagero. Em mil novecentos e sessenta e seis, o Chile rebatizou a ilha de Robinson Crusoé, pra atrair turistas. Selkirk morreu em dezembro de mil setecentos e vinte e um, a bordo do navio Uêimouth, na costa da África, de febre, segundo a Wikipédia. Rógers escreveu que a solidão não é um estado tão insuportável quanto muita gente imagina. Talvez. Mas Selkirk só pôde provar isso porque a ilha tinha água, cabras, nabos, e um navio que, um dia, viu a fogueira dele. Se essa história te prendeu, se inscreve. No próximo vídeo: um caçador de peles atacado por um urso pardo, em mil oitocentos e vinte e três, dado como morto pelos dois homens que ficaram pra enterrá-lo, e que andou mais de trezentos quilômetros, por seis semanas, até um forte.