Dado Como Morto Duas Vezes no Everest, Ele Se Levantou Sozinho na Neve🚨
Oito mil e quatrocentos metros de altitude. Uma tempestade de neve engole a montanha, e ninguém consegue ver além de três metros. Nessa noite, dez pessoas ficam perdidas a poucos passos do próprio acampamento. Um médico americano cai na neve e não se levanta mais.
Transcrição
Oito mil e quatrocentos metros de altitude. Uma tempestade de neve engole a montanha, e ninguém consegue ver além de três metros. Nessa noite, dez pessoas ficam perdidas a poucos passos do próprio acampamento. Um médico americano cai na neve e não se levanta mais. Na manhã seguinte, dois socorristas o encontram: congelado, sem reação, o rosto coberto de gelo. Eles decidem que está morto, e vão embora. Horas depois, um segundo grupo olha para ele outra vez — e o declara morto de novo. Quinze horas depois de cair na neve, esse homem vai se levantar, sozinho, e caminhar de volta ao acampamento. Essa é a história de Beck Weathers, no Monte Everest, em mil novecentos e noventa e seis.
Beck Weathers é patologista, do Texas. Aos quarenta e nove anos, decide escalar as sete montanhas mais altas de cada continente — e o Everest é a que falta. Um ano e meio antes, ele tinha feito uma cirurgia pra corrigir a vista, sem grau. Ninguém tinha testado o que a altitude extrema faz com esse tipo de cirurgia. Ele se junta à expedição do guia neozelandês Rob Hall, com outros sete clientes pagantes. Hall já tinha guiado trinta e nove clientes ao cume do Everest, sem nenhuma morte. Naquela mesma semana, mais de trinta expedições tentavam o cume disputando a mesma janela curta de bom tempo. No dia dez de maio de mil novecentos e noventa e seis, o grupo parte para o cume. No fim deste vídeo, você vai entender por que esse homem foi dado como morto duas vezes — e por que, nas duas vezes, isso não foi suficiente.
A cerca de oito mil e quatrocentos metros, num ponto chamado o Balcão, a visão de Weathers piora rápido. Ele avisa Rob Hall: está ficando cego. Hall pede pra ele esperar ali, sentado na neve, dizer que o sol vai ajudar a vista a melhorar — e promete buscá-lo na descida. Sozinho, ele espera mais de uma hora, imóvel, no ponto mais exposto da rota. Quando um grupo finalmente desce e o encontra, o tempo já virou. Nuvens sobem pela montanha, o vento aumenta, e a visibilidade despenca pra poucos metros. Weathers se junta a esse grupo pra descida — o começo do pior erro de navegação da história do Everest.
O grupo, com mais de dez pessoas, tenta achar o Acampamento Quatro dentro de uma tempestade branca: sem visibilidade, sem referência, girando em círculos a poucos metros das próprias barracas. Alguns tropeçam num penhasco de gelo — e descobrem, por acaso, onde estão: no limite do Colo Sul. Weathers, exausto e praticamente cego, não consegue continuar. Ele se senta na neve, com outros quatro. Os guias que ainda estão de pé decidem seguir em frente, sozinhos, pra buscar ajuda no acampamento. Prometem voltar. Enquanto isso, perto do cume, o próprio Rob Hall está preso pela tempestade, sem conseguir descer — não vai poder ajudar ninguém. Ao todo, essa mesma tempestade prende gente de duas expedições diferentes, a de Hall e a do guia americano Scott Fischer, que subiam pela mesma rota no mesmo dia. Weathers apaga na neve, e não sabe quanto tempo passa.
Na manhã seguinte, o médico canadense Stuart Hutchison sai com dois xerpas pra procurar o grupo perdido. A menos de duzentos metros do acampamento, encontram os corpos cobertos de neve. Dois ainda respiram: Weathers, e a executiva japonesa Yasuko Namba. Hutchison os examina. Estão além de qualquer ajuda que a montanha permita — mover um corpo inconsciente a essa altitude pode matar quem carrega e quem é carregado. Ele toma a decisão mais difícil da própria vida: deixar os dois ali, e voltar sem eles. É a segunda vez que Weathers é dado como morto. Naquele dia, Yasuko Namba não sobrevive. Weathers, sim — e até hoje ninguém sabe dizer exatamente por quê.
Na medicina de emergência existe uma frase quase padrão pra hipotermia extrema: ninguém está morto até estar quente e morto. Quando o corpo despenca abaixo de trinta e cinco graus, ele passa por estágios. Leve, ainda tremendo. Moderada, quando o tremor para e a mente começa a falhar. E severa, abaixo de vinte e oito graus, quando o coração pode parecer ter parado — sem ter parado de verdade. O frio extremo desacelera cada célula do corpo, inclusive as do cérebro, que passam a precisar de muito menos oxigênio pra continuar vivas. É por isso que gente resgatada horas depois, aparentemente morta, às vezes volta. O mesmo mecanismo que talvez tenha poupado o cérebro de Weathers cobra um preço: pra manter o sangue quente nos órgãos vitais, o corpo fecha a circulação nas mãos e nos pés primeiro — a mesma decisão do corpo que, meses depois, custaria a ele o braço, os dedos e parte dos pés. Ninguém sabe dizer com certeza por que Weathers sobreviveu à noite que matou Yasuko Namba ao lado dele — só que o mesmo frio que devia ter matado os dois pode ter sido, pra um deles, o que preservou o suficiente do corpo até o calor voltar.
Weathers acorda sozinho, ao final da tarde, coberto de neve congelada. Não sente as mãos. Quando as olha, o braço direito já está duro, da cor de porcelana. Ele pensa na mulher e nos dois filhos, no Texas — e decide uma coisa simples: se ficar ali, é certeza; se andar, é só provável. Ele se levanta. Sem enxergar quase nada, sem sentir os pés, caminha sozinho, direto contra o vento, até avistar o brilho de uma lanterna nas barracas. Quando entra no acampamento, cambaleando, os outros alpinistas o olham em silêncio — ninguém ali esperava ver esse homem de novo, muito menos andando.
Achavam que sua chance de sobreviver era quase nula, e ninguém tem energia pra tirá-lo do acampamento durante a noite. Weathers passa mais uma noite sozinho, numa barraca cuja lona o vento abre — exposto ao frio outra vez, depois de já ter sobrevivido a uma noite inteira do lado de fora. Na manhã seguinte, ele ainda está vivo. Outros alpinistas o amarram a uma corda e começam a descida, apoiando cada passo dele pelo caminho mais perigoso do Everest: a Face Sudoeste. Ao lado, também congelado, está o taiwanês Makalu Gau, que liderava a própria expedição e passou a mesma noite exposto no Colo Sul. Os dois vão perder dedos e partes dos pés pro congelamento. Metro por metro, o grupo desce em direção ao Vale do Silêncio.
No dia seguinte, treze de maio, a pressão que salva Weathers não vem só da montanha. Peach, mulher dele, passa dias ligando pra embaixadas e autoridades no Texas, pedindo um resgate que ninguém queria arriscar. Um piloto do exército nepalês aceita a missão: o tenente-coronel Madan Khatri Chhetri vai tentar pousar um helicóptero no Vale do Silêncio, a mais de seis mil metros — muito além do limite oficial da aeronave. Ele voa até lá duas vezes no mesmo dia: na primeira, resgata o taiwanês Makalu Gau; na segunda, Weathers, cego e sem uma das mãos funcionando, é erguido a bordo. É, até aquele dia, o resgate de helicóptero em maior altitude já realizado. Beck Weathers está vivo — e vai pra casa, pro casamento que quase tinha desistido dele.
O preço da sobrevivência aparece nos meses seguintes: o braço direito, amputado abaixo do cotovelo; os cinco dedos da mão esquerda; partes dos dois pés; e o nariz, reconstruído com pele da própria orelha e da testa. Weathers escreveria, depois, que a queda no Everest não foi a única coisa de que ele quase morreu: a depressão e o alpinismo já tinham quase destruído o casamento antes da expedição. Foi Peach, a mulher que estava perto de pedir o divórcio, quem brigou pela vida dele à distância — e foi voltar sem metade das mãos que os aproximou de novo. Se essa história te prendeu, se inscreve — no próximo vídeo: doze garotos de um time de futebol e o técnico deles ficam presos numa caverna inundada na Tailândia, em dois mil e dezoito, por dezoito dias. Pra tirá-los vivos, os socorristas tiveram que fazer uma coisa que parece loucura: dopar cada garoto e arrastá-lo, desacordado, por quilômetros de água escura.