Os 33 do Chile: 69 Dias a 700 Metros Com Comida Pra 2 Dias🚨
Começo da tarde. Setecentos metros abaixo do deserto mais seco do mundo. Uma caminhonete sobe uma rampa em espiral, escavada na rocha, com os faróis acesos no escuro. Lá em cima, um estrondo. O chão treme. Da curva de cima desce uma nuvem de poeira tão densa que os faróis não atravessam.
Transcrição
Começo da tarde. Setecentos metros abaixo do deserto mais seco do mundo. Uma caminhonete sobe uma rampa em espiral, escavada na rocha, com os faróis acesos no escuro. Lá em cima, um estrondo. O chão treme. Da curva de cima desce uma nuvem de poeira tão densa que os faróis não atravessam. Os homens param, esperam, tentam de novo. Quando a poeira assenta, a rampa não existe mais. No lugar dela, um bloco de rocha de setecentas mil toneladas fecha o túnel de parede a parede. Do outro lado ficaram trinta e três homens. Entre eles e o céu há setecentos metros de pedra. Num refúgio de cinquenta metros quadrados, a comida de emergência dá pra dois dias. E ninguém na superfície sabe se algum deles está vivo. Vão passar dezessete dias até a primeira notícia. E sessenta e nove até o último sair.
Cinco de agosto de dois mil e dez. Mina San José, perto de Copiapó, no deserto do Atacama, no norte do Chile. Uma mina de cobre e ouro com mais de cem anos, cavada como um saca-rolhas: uma rampa que desce em espiral por quilômetros, até setecentos metros de profundidade. É uma mina pobre e perigosa. Nos seis anos anteriores, tinha sido multada quarenta e duas vezes por falha de segurança. Oito trabalhadores tinham morrido ali desde mil novecentos e noventa e oito. Um mês antes, um mineiro perdera uma perna. Os homens continuavam descendo porque o salário era melhor que o das outras minas. Naquela tarde, o turno tinha trinta e três: o mais novo com dezenove anos, o mais velho com sessenta e três, um boliviano, e o chefe de turno, Luis Urzúa, de cinquenta e quatro. No fim desse vídeo você vai entender como trinta e três homens esticam comida de dois dias por dezessete — e por que o que os salvou não foi a comida.
Quando a poeira baixa, Urzúa reúne os homens no refúgio: uma sala escavada na rocha, com dois bancos compridos, uma porta de ferro e um armário de emergência. Dentro do armário, o que era pra durar dois ou três dias: umas latas de atum, leite, biscoitos, pêssego em calda. Alguns homens, com fome e com medo, já tinham aberto pacotes no escuro. Urzúa faz o que faria em qualquer turno: assume o comando, e submete cada decisão a voto. Dezesseis mais um é maioria. A primeira decisão é a ração: duas colheradas de atum, meio biscoito e um gole de leite. Por homem. A cada quarenta e oito horas. Ninguém come antes, ninguém come mais. Os homens são divididos em três turnos de oito horas, como se a mina ainda funcionasse. Quem sabe de remédio vira o médico. O mais velho monta uma capela. E acima deles, a empresa só avisa as autoridades no começo da noite, horas depois do desabamento.
Eles não esperam sentados. Urzúa manda equipes procurarem uma saída. A mina tem chaminés de ventilação: poços verticais que ligam os níveis, com escadas por norma. Um grupo sobe por uma delas, no escuro, degrau por degrau. A escada acaba. Não há degrau seguinte: a escada obrigatória nunca foi instalada. Eles voltam. Depois, os engenheiros calculariam que faltavam vinte e cinco metros pra saírem. Dois dias depois, um segundo desabamento fecha a chaminé de vez. A partir daí, não há mais saída pra procurar. Só existe esperar, no calor: trinta e um graus, umidade quase total, escuridão fora das lanternas dos capacetes, que eles acendem cada vez menos pra poupar bateria. Mas a mina tem duas coisas de sobra, e elas vão decidir tudo. Ar: são dois quilômetros de galerias abertas atrás da rocha. E água: tanques usados nas máquinas, com gosto de óleo, e a que escorre da própria pedra.
Na superfície, a partir do quarto dia, as perfuratrizes começam a furar. Sondas finas, de dez centímetros, descendo setecentos metros por rocha dura à procura de um túnel de alguns metros de largura. Lá embaixo, os homens ouvem as brocas na pedra. Ouvem uma se aproximar durante dias. E ouvem ela passar ao lado, e seguir. No décimo quinto dia, uma sonda chega a setecentos e sessenta metros, mais fundo que eles, e não acha nada. Nenhuma das primeiras sete acerta. As plantas da mina estão erradas, e a essa profundidade a broca entorta alguns graus — o bastante pra errar por dezenas de metros. No refúgio, a ração passa pra uma colherada a cada setenta e dois horas. Os homens já perderam oito quilos cada um. Escrevem cartas pra família e guardam. Ninguém em cima sabe se estão vivos. Ninguém embaixo sabe se alguém ainda procura.
Vinte e dois de agosto. Dia dezessete. Pouco depois das sete da manhã, a oitava sonda rompe o teto de uma galeria, a vinte metros do refúgio. Os homens correm até ela com o que têm nas mãos. Batem na broca com ferramentas, pra que quem está em cima sinta. Pintam a ponta com tinta vermelha. E prendem à broca, com fita, bilhetes. Um deles, escrito a lápis vermelho por José Ojeda: 'Estamos bien en el refugio los 33' Estamos bem no refúgio, os trinta e três. Lá em cima, a broca sobe setecentos metros. Leva horas. Quando sai da terra, os técnicos veem a tinta vermelha, e depois o papel. Às três e dezessete da tarde, o presidente do Chile lê o bilhete diante das câmeras. No acampamento das famílias, que já se chamava Esperança, as pessoas gritam. Dezessete dias depois do desabamento, o mundo inteiro sabe: os trinta e três estão vivos.
Como trinta e três homens esticam comida de dois dias por dezessete? A resposta é que não foi a comida que os manteve vivos. Um corpo humano aguenta cerca de três dias sem água, e semanas sem comer. Sem água, a história acabaria no terceiro dia — e a mina tinha água nos tanques das máquinas e na própria rocha. Com água, o problema vira energia. Depois de dois ou três dias sem comer, o corpo troca de combustível: gasta o açúcar que tinha guardado e passa a queimar a própria gordura. Foi isso que os alimentou. Os oito quilos que cada um perdeu não foram só fraqueza: foram a reserva que o corpo consumiu. A ração de atum e leite era quase nada em calorias. O que ela dava era outra coisa: um ritmo, e uma prova, a cada dois dias, de que ninguém estava comendo mais que o outro. Porque a ameaça real, no escuro, não é a fome — é o grupo se romper. Dezesseis mais um. Ração igual. Turnos de oito horas. Uma capela. Foi essa organização que transformou trinta e três homens famintos num único turno de trabalho esperando o fim do expediente.
A partir dali, a mina ganha uma veia. Pelo furo de dez centímetros descem as palomas: tubos de plástico de um metro e meio, que levam uma hora pra chegar. Primeiro, glicose e remédio pra úlcera: o estômago dos homens não aguentaria comida de verdade. Depois, sopa, cartas, luzes com temporizador pra separar dia e noite, e uma câmera. Os médicos impõem uma dieta de duas mil e duzentas calorias por dia. Não pra engordar: pra que nenhum deles fique largo demais pra caber num tubo de cinquenta e quatro centímetros. Porque a única saída é um poço. Três perfuratrizes começam a cavar ao mesmo tempo, em três planos: A, B e C. A mais rápida avança vinte metros por dia. Os homens embaixo ajudam, removendo as toneladas de pedra que caem do furo. Setembro inteiro passa assim. E no dia nove de outubro, às oito e cinco da manhã, o Plano B rompe a pouco mais de seiscentos metros, dentro da oficina da mina. Dia sessenta e seis. Agora existe um caminho até o céu. Com sessenta e seis centímetros de largura.
A cápsula se chama Fênix. Foi construída pela Marinha do Chile com ajuda da NASA: um tubo de aço de cinquenta e quatro centímetros de diâmetro, com oxigênio, luz, rádio e uma escotilha de emergência. Sobe a um metro por segundo. Doze de outubro, onze e dezoito da noite. Um socorrista desce sozinho, a primeira pessoa de fora a ver os trinta e três em sessenta e nove dias. Dez minutos depois da meia-noite, a cápsula volta à superfície com o primeiro mineiro, Florencio Ávalos, de trinta e um anos. Mais de um bilhão de pessoas assistem ao vivo. A cápsula desce e sobe trinta e nove vezes. Os homens saem de óculos escuros: depois de mais de dois meses no escuro, a luz do dia machuca. Vinte e duas horas e trinta e sete minutos depois do começo, às nove e cinquenta e cinco da noite do dia treze, a Fênix sobe pela última vez com o chefe de turno. Luis Urzúa foi o último a sair, como manda o turno. Trinta e três desceram. Trinta e três subiram.
Uma semana depois, todos estavam fora do hospital. A mina San José foi fechada. A investigação criminal durou três anos e terminou sem nenhuma acusação. A indenização civil só saiu em dois mil e vinte e um. E a vida depois foi mais difícil do que as imagens do resgate prometiam: Mario Sepúlveda, o mais animado dos trinta e três, diria que as pessoas acharam que o inferno deles tinha acabado ali — quando estava só começando. A lição de San José não é sobre força. Trinta e três homens sobreviveram porque a mina tinha água, porque o corpo tem reserva, e porque no primeiro dia, no escuro, eles decidiram dividir. A colher de atum não alimentava ninguém. Ela provava que ainda eram um grupo. Se essa história te prendeu, se inscreve — no próximo vídeo: um médico é dado como morto no Everest, passa uma noite inteira deitado na neve a mais de oito mil metros — e, no dia seguinte, se levanta e entra no acampamento andando.