Mauro Prosperi: 9 Dias Perdido no Saara Com Meia Garrafa de Água🚨
Meio da tarde, no Saara. Quarenta e seis graus. Um homem corre sozinho pela areia, com uma mochila nas costas e um número preso no peito. No horizonte, o céu muda de cor. Uma parede amarela vem na direção dele. Em segundos, ele é engolido pela areia: não enxerga, não consegue respirar.
Transcrição
Meio da tarde, no Saara. Quarenta e seis graus. Um homem corre sozinho pela areia, com uma mochila nas costas e um número preso no peito. No horizonte, o céu muda de cor. Uma parede amarela vem na direção dele. Em segundos, ele é engolido pela areia: não enxerga, não consegue respirar. O regulamento manda parar e esperar. Ele continua correndo, porque acha que ainda vê a trilha. Mais de oitenta corredores estão espalhados por essa etapa, e ele já não vê nenhum. A tempestade dura oito horas. Quando ela passa, não existe mais trilha, não existe mais ninguém, e as dunas em volta não são as mesmas de antes. Na garrafa dele sobra meia água. E vai demorar nove dias até alguém encontrá-lo — em outro país.
Em abril de mil novecentos e noventa e quatro, o policial italiano Mauro Prosperi, atleta de pentatlo, corre a Maratona das Areias, no sul do Marrocos. São duzentos e cinquenta e um quilômetros pelo deserto, em etapas, carregando nas costas tudo o que vai comer a semana inteira. É considerada uma das provas a pé mais duras do mundo. Nos três primeiros dias, ele vai bem, entre os primeiros colocados. O quarto dia é a etapa mais longa: mais de oitenta e cinco quilômetros, com o termômetro em quarenta e seis graus. É no meio dela que a tempestade chega. No fim desse vídeo você vai entender como um homem com meio cantil de água sobrevive nove dias num deserto onde, pelas contas do exército americano, trabalhar ao sol exige dezenove litros de água por dia.
Quando a areia assenta, já é noite. Prosperi tem uma bússola na mochila, mas em todas as direções só vê areia, e não sabe de onde veio. Então faz o que o regulamento manda: fica parado e espera. No fim da tarde seguinte, ouve um motor. Um helicóptero voando baixo, vindo na direção dele. Ele dispara o sinalizador de emergência. O helicóptero passa, e vai embora. Contra o sol baixo, o piloto nunca viu a luz. E à noite, o deserto que de dia queimava esfria depressa. A água acaba. Pra não perder o pouco líquido que o corpo ainda produz, ele urina na garrafa vazia e guarda. Ele já não é um corredor atrasado na prova. É um homem perdido no maior deserto quente do planeta.
Ele começa a andar. Depois de horas, no meio do nada, aparece uma construção pequena e branca, com uma cúpula: um santuário muçulmano abandonado, o túmulo de um homem santo. É a primeira sombra de verdade que ele encontra. Prosperi sobe no telhado e prende num pedaço de pau a pequena bandeira da Itália que levava na mochila, pra quem passar de avião. Dentro, no teto, dormem morcegos. Ele fica ali alguns dias, e é deles que vive: come os morcegos crus e bebe o sangue. Come três ovos de pássaro que acha num ninho. E cozinha o resto da ração no fogareiro, usando a própria urina no lugar da água.
No quarto dia, outro avião cruza o céu. Prosperi põe fogo na mochila pra fazer fumaça e escreve socorro na areia com os pés. O avião não muda de rumo. Quatro dias perdido, sem saber onde está, vendo o segundo avião ir embora, ele tem uma certeza só: ninguém vai encontrá-lo. É aí que ele desiste. Sozinho dentro do santuário, com um pedaço de carvão, escreve na parede uma despedida pra família. Mas ele não morre ali. E quando amanhece, Prosperi toma a decisão que vai salvá-lo: se for pra morrer, vai morrer andando. Ele deixa a sombra do santuário, deixa a bandeira no telhado, e volta pro deserto.
Ele aprende o ritmo do deserto. Nas horas mais quentes, se esconde em qualquer sombra que encontra. Anda de madrugada e no fim da tarde. Lambe o orvalho que se forma nas pedras antes do sol nascer. Suga os lenços umedecidos da mochila. Mastiga raízes pelo líquido que elas têm. Come lagartos, besouros, cobras. O corpo vai secando: os olhos afundam tanto que, anos depois, ele diria que já não conseguia vê-los. E sem saber, atravessa uma serra inteira de rocha, o Jebel Bani, e cruza uma fronteira que não existe no chão. Ele já não está no Marrocos. Está na Argélia.
No oitavo dia, no leito seco de um rio, ele vê um brilho no chão. Não é miragem. É uma poça. Não um lago, nem um oásis de cartão postal: só um espelho de água parada, no fundo de um vale seco. Ele se deita ao lado dela e bebe água de verdade pela primeira vez em uma semana. É pouco. Mas é o que devolve a ele a força de andar mais um dia. E mais um dia é exatamente o que falta. Enquanto isso, no Marrocos, a busca é enorme. O irmão e o cunhado de Prosperi voaram da Itália. O exército marroquino e rastreadores beduínos vasculham a região, jipes percorrem a rota da prova, ultraleves sobrevoam as dunas. Os rastreadores chegam a achar sinais dele no santuário. Mas ele já não está lá. E a cada dia sem notícia, as autoridades passam a tratar o caso como o de um homem morto.
Como um homem com meio cantil sobrevive nove dias a quarenta e seis graus? O manual de sobrevivência do exército americano dá a conta. Trabalhando pesado ao sol, a quarenta e três graus, o corpo precisa de dezenove litros de água por dia, quase tudo perdido em suor. E o chão é pior que o ar: a areia fica de dezesseis a vinte e dois graus mais quente. Num dia de quarenta e seis, ela passa dos sessenta. Na sombra é o contrário: até dezessete graus mais fresco. Por isso o manual manda três coisas: ficar na sombra nas horas quentes, se mexer o mínimo, e andar só quando o sol baixa. Quem fica parado na sombra, calado e de boca fechada, precisa de muito menos água pra continuar vivo. Prosperi nunca leu o manual, e fez as três. Anos depois, o fundador da prova chegou a dizer que era fisiologicamente impossível andar mais de duzentos quilômetros no deserto sem água. Mas ele não andou sem água: bebeu orvalho, sangue, o líquido das raízes e, no fim, uma poça. A única regra do manual que ele quebrou foi a que diz pra não beber urina, e ele só a quebrou quando não havia mais nada. Em mil novecentos e noventa e cinco, uma equipe de filmagem encontrou o santuário. E, dentro dele, os ossos dos morcegos.
No nono dia, ele vê cabras. E uma menina tuaregue pastoreando. Ela olha pra ele e sai correndo, gritando de medo, até sumir atrás de uma duna. Não é difícil entender: Prosperi perdeu quinze quilos. Ele contaria depois que, pelo olhar dela, entendeu o que tinha virado: um esqueleto coberto de areia. Mas a menina volta com a avó. A senhora o leva até uma tenda de nômades, onde lhe dão chá de menta e leite de cabra. Depois o põem num camelo até a aldeia mais próxima. Ali, a polícia militar o interroga de olhos vendados: um estrangeiro esquelético surgindo do nada perto da fronteira parece espião. Só então alguém entende quem ele é.
Ele é levado ao hospital de Tindouf, na Argélia, e fica sete dias internado. Está a duzentos e noventa e um quilômetros da rota da prova. Pesa quarenta e quatro quilos. Precisa de dezesseis litros de soro na veia, e o fígado e os rins estão danificados. Na Itália, a mulher dele já o dava como morto, até o telefone tocar. Por meses, ele só consegue comer sopa e comida amassada. As câimbras nas pernas duram um ano. Leva quase dois anos pra voltar a ser o que era. E a prova muda uma regra por causa dele: os corredores passam a carregar sinalizadores maiores, que um piloto consiga ver mesmo com o sol baixo.
E Mauro Prosperi voltou ao Saara. Correu a Maratona das Areias mais seis vezes. Em dois mil e um, terminou em décimo terceiro lugar. A lição que ele deixou não é sobre força, nem sobre velocidade: no deserto, correr gasta a água que você não tem. Ele sobreviveu quando parou de lutar contra o calor e passou a esperar por ele, na sombra, guardando cada gota. Em dois mil e vinte, ele contou tudo num livro escrito com a ex-mulher, Cinzia: Aqueles Dez Dias Além da Vida. E o santuário continua lá, no meio do deserto: em dois mil e vinte e dois, uma equipe de televisão voltou a ele. Se essa história te prendeu, se inscreve — no próximo vídeo: trinta e três mineiros ficam presos a setecentos metros de profundidade no Chile, e passam dezessete dias sem que ninguém na superfície saiba se algum deles ainda está vivo.