Yellowstone 2022: o rio pequeno que levou a estrada
Em 13 de junho de 2022, o Yellowstone bateu o maior pico de mais de cem anos, 70% acima do anterior. Mas a estrada da entrada norte foi levada por outro rio, o Gardner, 21 vezes menor. A diferença está no fundo do cânion onde ela foi posta.
Capítulos
- 0:00 A estrada levada pela água
- 0:18 Uma correção do episódio passado
- 0:38 O recorde desde 1890
- 1:09 De onde veio a água
- 1:36 Quão raro foi
- 2:03 A estrada não segue o Yellowstone
- 2:23 O rio 21 vezes menor
- 2:47 Por que a estrada está no fundo do cânion
- 3:15 O cânion, medido no lidar
- 3:43 O declive: 12 vezes
- 4:04 A potência por metro quadrado
- 4:37 As ressalvas da conta
- 5:10 O canal apertado
- 5:29 A parede também cedeu
- 5:52 Quanto foi destruído
- 6:18 O canal que mudou de lugar
- 6:44 O mesmo dilúvio, três margens
- 7:12 O Lamar, em vale largo
- 7:31 O parque fecha
- 7:50 A rota de 1879 volta
- 8:10 2026: o trecho será devolvido
- 8:26 Um fundo de cânion só tem espaço para um rio
- 8:49 Dry Falls, a cachoeira sem água
Transcrição
A estrada levada pela água 0:00
Esta estrada ligava a cidade de Gardiner, em Montana, ao parque de Yellowstone. Em treze de junho de dois mil e vinte e dois, a água levou trechos inteiros dela. O rio que bateu o recorde da história medida não foi o que fez isso. Foi um rio bem menor.
Uma correção do episódio passado 0:18
No fim do episódio passado, eu disse que o Yellowstone era outro rio que muda de lugar de uma vez. Fui conferir nas fontes: nenhuma diz isso do Yellowstone. O que elas dizem é mais estranho. O rio que levou a estrada carrega vinte vezes menos água. E levou mesmo assim.
O recorde desde 1890 0:38
Primeiro, o recorde. Em Corwin Springs, uma estação do Serviço Geológico mede o Yellowstone desde mil oitocentos e noventa. No dia treze, o pico foi de mil quinhentos e quarenta e nove metros cúbicos por segundo. O maior até então tinha sido novecentos e doze, em mil novecentos e noventa e seis, e de novo em noventa e sete. Setenta por cento acima. Em cento e dezesseis anos de registro, nada tinha chegado perto.
De onde veio a água 1:09
De onde veio tanta água? Em oito de junho, um rio atmosférico despejou chuva no noroeste dos Estados Unidos e seguiu para o interior. Entre nove e treze de junho, caíram de cinquenta a cento e vinte e sete milímetros de chuva. Caíram sobre neve acumulada: nas montanhas Beartooth, cento e quarenta e quatro por cento da média. Dezessete estações do Serviço Geológico registraram a maior vazão da sua história.
Quão raro foi 1:36
Quão raro foi isso? O Serviço Geológico calcula que a chance de um pico assim, em qualquer ano, era menor que duas em mil. O parque chama de cheia de quinhentos anos. Antes dela, a maior cheia bem medida tinha sido a de mil novecentos e dezoito, com novecentos e seis metros cúbicos por segundo. Em mais de um século, o rio nunca tinha ido sequer perto do dobro.
A estrada não segue o Yellowstone 2:03
Só que a estrada não segue o Yellowstone. Ela sai de Gardiner, onde o rio Gardner encontra o Yellowstone, e sobe pelo cânion do Gardner até Mammoth. A estação do recorde fica para o outro lado, uns dez quilômetros ao norte, rio abaixo. No cânion, quem manda é o Gardner.
O rio 21 vezes menor 2:23
E o Gardner é pequeno. Na estação perto de Mammoth, o pico foi de setenta e dois metros cúbicos por segundo. Foi recorde, mas por pouco: o anterior, de dois mil e dez, era de sessenta. São vinte e uma vezes menos que o Yellowstone em Corwin Springs. O Lamar, no nordeste do parque, levou quase mil.
Por que a estrada está no fundo do cânion 2:47
Por que uma estrada foi parar no fundo desse cânion? Porque era o único chão plano. Em mil oitocentos e oitenta e três, o tenente Dan Kingman recomendou seguir o Gardner por dentro do cânion. Em mil novecentos e três, o engenheiro Hiram Chittenden já tinha alargado a estrada para sete metros e meio, com quatro pontes sobre o próprio rio. A rota anterior, de mil oitocentos e setenta e nove, evitava o cânion e ficava no alto.
O cânion, medido no lidar 3:15
Este é um corte do cânion do Gardner, medido por nós no lidar do Serviço Geológico. Cinco metros acima do leito, o fundo tem trinta metros de largura. Depois, as paredes sobem. Este é o Yellowstone, a alguns quilômetros dali, na mesma largura de janela. Nos mesmos cinco metros, o fundo tem noventa e cinco, e há terraços dos dois lados.
O declive: 12 vezes 3:43
Agora o declive. Nesse trecho do cânion, o Gardner desce vinte e oito metros a cada quilômetro. O Yellowstone, no trecho que medimos, desce dois vírgula três. Doze vezes menos. Muita água num chão quase plano, pouca água num chão que despenca.
A potência por metro quadrado 4:04
Juntando vazão, declive e largura, dá para calcular a potência da água por metro quadrado de leito. É a conta que os geomorfólogos usam para estimar quanto um rio consegue mexer no próprio fundo. A nossa dá uns trezentos e sessenta watts por metro quadrado no Gardner, e uns duzentos e setenta no Yellowstone. Um rio vinte vezes menor, com mais força por metro. Perto de trezentos, a literatura já espera mudança grande no leito.
As ressalvas da conta 4:37
Essa conta tem ressalvas, e elas estão na tela. A vazão do Gardner é a da estação de Mammoth, no alto do cânion, e a largura depende da altura em que se mede. Medindo a três metros do leito, o Gardner sobe para seiscentos e sessenta watts por metro quadrado. A oito metros, cai para duzentos e sessenta e cinco. O Yellowstone vai de duzentos e vinte e cinco a trezentos e dezoito. Nos dois extremos o Gardner fica na frente, só que por margens bem diferentes.
O canal apertado 5:10
O artigo que mediu o estrago diz o mesmo, em outras palavras. No cânion do Gardner houve erosão de margem, deslizamentos e depósito de sedimento. O canal, íngreme e apertado, concentrou a força nas bordas do vale. E a estrada estava nessa borda.
A parede também cedeu 5:29
Nem tudo foi água carregando asfalto. Também desceu a parede. Esta é uma queda de blocos sobre a estrada, no cânion do Gardner, fotografada no dia treze. E não era novidade: no outono de mil novecentos e seis, um deslizamento seco já tinha caído perto da primeira ponte a partir de Gardiner. A estrada foi feita no pé de uma encosta que já tinha dado sinal.
Quanto foi destruído 5:52
Quanto foi destruído? O parque fala em cerca de cinco trechos de grande dano na estrada da entrada norte. No nordeste, três trechos foram levados, entre o cânion do Lamar e Warm Creek. A ponte do Rescue Creek, uma cabana de patrulha e trilhas inteiras também foram embora. O Serviço Geológico resume: muitas estradas e pontes destruídas, e casas e veículos levados pela água.
O canal que mudou de lugar 6:18
E o rio? Num ponto de monitoramento do Serviço Geológico, no Gardner, o canal principal passou para a outra margem. Foram uns nove metros, trinta pés, e o leito novo ficou mais estreito. Cerca de um metro e vinte de entulho cobriu o local. É a única medida que achamos, de um ponto só. Mas as fotos do parque mostram o mesmo: canal novo onde era margem.
O mesmo dilúvio, três margens 6:44
O mesmo dilúvio, medido em três lugares, passou do recorde antigo por margens bem diferentes. Em Corwin Springs, um vírgula sete vezes. Em Livingston, um vírgula trinta e seis. Em Billings, uns trezentos quilômetros rio abaixo, só dois por cento acima. A água levou sete horas para chegar a Livingston, e mais trinta e cinco para chegar a Billings.
O Lamar, em vale largo 7:12
No Lamar, o vale é largo, e o rio fez outra coisa. Espalhou cascalho pela planície e trocou de canal. O pico foi um vírgula sete vezes o de mil novecentos e noventa e seis. E já tinha acontecido antes: anéis de árvores mostram uma cheia parecida no Lamar, em mil novecentos e dezoito.
O parque fecha 7:31
No dia treze, o parque parou de receber visitantes. Houve evacuações dentro dele e em cidades de Montana, como Livingston e Red Lodge. A estrada do sul reabriu nove dias depois, em vinte e dois de junho. A da entrada norte, de Gardiner a Mammoth, não voltou.
A rota de 1879 volta 7:50
A solução foi voltar à rota de mil oitocentos e setenta e nove. Em trinta de outubro de dois mil e vinte e dois, abriu uma estrada provisória sobre a velha estrada de Gardiner, uns seis quilômetros alargados, ao custo estimado de vinte e um milhões de dólares. A do nordeste reabriu em quinze de outubro, por vinte e cinco milhões.
2026: o trecho será devolvido 8:10
Em setembro de dois mil e vinte e seis, o parque decidiu o destino da estrada antiga. A maior parte do trecho danificado, no cânion do Gardner, será recuperada. O termo do próprio parque é reclaimed: devolvida ao terreno.
Um fundo de cânion só tem espaço para um rio 8:26
A forma do lugar, aqui, é um fundo de cânion que só tem espaço para um rio. Qualquer coisa posta ali é hóspede, até o dia em que ele precisa do espaço. O recorde foi de um rio grande num vale com folga. O estrago foi de um rio pequeno num lugar sem folga. A conta está no declive e na largura, não só na vazão.
Dry Falls, a cachoeira sem água 8:49
No próximo episódio, uma cachoeira sem água: Dry Falls, no estado de Washington, com perto de cinco quilômetros de largura. Ela marca o fim de inundações que, na estimativa mais recente, chegaram a vinte milhões de metros cúbicos por segundo: quase cem Amazonas. E a ideia de que isso aconteceu foi combatida por décadas, inclusive pelo próprio Serviço Geológico.
Descrição e fontes
Em Corwin Springs, o Yellowstone chegou a 1.549 m³/s (54.700 pés³/s) em 13/6/2022, 70% acima do maior pico anterior (912 m³/s, em 1996 e 1997), em 116 anos de registro desde 1890. Choveu de 51 a 127 mm sobre neve a 144% da média, e 17 estações do USGS bateram recorde. Mas a estrada de Gardiner a Mammoth não segue o Yellowstone: sobe pelo cânion do rio Gardner, que no pico levou 72 m³/s, 21 vezes menos. A estrada foi posta ali em 1883 e alargada em 1903, porque o fundo do cânion era o único chão plano. No nosso lidar, o Gardner desce 28 m por km (o Yellowstone, 2,3), com fundo de 30 m de largura a 5 m do leito (95 m no Yellowstone); a potência da água por m² de leito dá ~360 contra ~270 W/m², com ressalvas de altura de medida mostradas no episódio. O estudo de campo fala em erosão de margem, deslizamentos e depósito onde o canal íngreme e apertado concentrou a força nas bordas do vale. O parque fechou, a estrada provisória abriu em 30/10/2022 sobre a velha rota de 1879, e em 2026 o parque decidiu recuperar ("reclaim") a maior parte do trecho danificado. O episódio também corrige a frase do fecho do ep14: nenhuma fonte diz que o Yellowstone mudou de lugar.
FONTES
- Chase, K. J., et al. (2024). June 2022 Floods in the Upper Yellowstone River Basin. USGS Fact Sheet 2024-3035. https://doi.org/10.3133/fs20243035
- USGS Yellowstone Volcano Observatory (McCleskey, 2023). Over a century of Yellowstone River streamflow measurements at Corwin Springs, MT. https://www.usgs.gov/observatories/yvo/news/over-a-century-yellowstone-river-streamflow-measurements-corwin-springs-mt
- USGS Yellowstone Volcano Observatory (McCleskey & Roth, 2022). How the 2022 Yellowstone flood affected a monitoring site on the Gardner River. https://www.usgs.gov/observatories/yvo/news/how-2022-yellowstone-flood-affected-a-monitoring-site-gardner-river
- Persico, L. & Meyer, G. (2024). Geomorphic response to the June 2022 floods in Yellowstone National Park. GSA Connects 2024 (abstract). https://par.nsf.gov/biblio/10508880
- DeLuca, Wilcox & Persico (2025). JGR Earth Surface, doi:10.1029/2024JF008215.
- NPS. The History of the Construction of the Road System in Yellowstone National Park, 1872-1966, cap. 13. https://npshistory.com/publications/yell/hrs-roads/chap13.htm
- NPS Yellowstone. Flood recovery. https://www.nps.gov/yell/planyourvisit/flood-recovery.htm; comunicado de 28/10/2022 https://www.nps.gov/yell/learn/news/220613.htm; comunicado de 17/9/2026 https://www.nps.gov/yell/learn/news/26023.htm
- USGS NWIS, 06191500 Yellowstone River at Corwin Springs: peak streamflow. https://nwis.waterdata.usgs.gov/nwis/peak?site_no=06191500
- Yochum et al. (2017). A stream power framework for predicting geomorphic change. USDA Forest Service.
- Callède, J., et al. (2010). Les apports en eau de l'Amazone à l'Océan Atlantique. Revue des sciences de l'eau 23(3).
- USGS 3DEP — Elevation Point Query Service. https://epqs.nationalmap.gov
PRANCHAS DE ACERVO — documentos em domínio público, com autor, acervo e licença.
- Yellowstone National Park - 2022-06-13 14:42 - Wikimedia Commons | Public domain
- Yellowstone National Park - 2022-06-16 10:40 - Wikimedia Commons | Public domain
- Yellowstone National Park - 2022-06-13 16:55 - Wikimedia Commons | Public domain
- Yellowstone flood event 2022- Confluence of Lamar and Yellowstone River with Yellowstone R - Wikimedia Commons | Public domain
... e mais 21 prancha(s), cada uma creditada em tela no vídeo e listada no manifesto deste projeto.
Fotografias: Yellowstone National Park / YellowstoneNPS (NPS), Wikimedia Commons, domínio público, 13/6 a 1/9/2022. Não há vídeo de acervo da cheia utilizável: os "vídeos" do NPS no Commons têm um quadro só (0,04 s).
Os diagramas são desenhados em código a partir dos números citados — nenhum é imagem gerada.
Números nossos: série de picos do NWIS 06191500; 1.549 ÷ 72 = 21 vezes; cortes do Gardner e do Yellowstone no lidar USGS/EPQS (declive, largura a 5 m, potência por m²).