The Repository A Forma do Lugar

Monte Rainier: a cidade construída em cima da lama

21 de outubro de 2026 · Duração 9:21 · Assistir no YouTube

Há uns 5.600 anos, o topo do Monte Rainier desabou e virou uma lama que andou mais de 120 km e entrou no mar, onde hoje fica o porto de Tacoma. O chão plano que ela deixou é onde estão Enumclaw, Auburn, Puyallup e Orting.

Capítulos

  1. 0:00 Lama descendo de um vulcão
  2. 0:19 Uma lama de outra escala
  3. 0:46 O vulcão mais vigiado pela lama
  4. 1:09 Gelo, água e rocha solta
  5. 1:35 O cume desaba: a ferradura
  6. 2:05 A rocha apodrecida por dentro
  7. 2:28 Avalanche que vira lama
  8. 2:57 O vale cheio, medido no lidar
  9. 3:28 167 km/h
  10. 3:57 Doze Amazonas
  11. 4:30 As cachoeiras de lama
  12. 4:59 A planície, medida no lidar
  13. 5:32 O depósito por dentro
  14. 5:57 As cidades em cima da lama
  15. 6:27 O rio que mudou de lugar
  16. 6:49 1906: o tronco que mudou o rio
  17. 7:25 As outras lamas do Rainier
  18. 7:53 O Electron: sem erupção
  19. 8:18 50 minutos até Orting
  20. 8:57 Yellowstone, junho de 2022

Transcrição

Lama descendo de um vulcão 0:00

Isto é lama descendo de um vulcão. Foi filmado em treze de agosto de dois mil e quinze, no riacho Tahoma, na encosta do Monte Rainier, no estado de Washington. Rocha, areia e troncos inteiros, andando juntos como um líquido grosso. E este é um fluxo pequeno.

Uma lama de outra escala 0:19

Há uns cinco mil e seiscentos anos, desceu desta mesma montanha uma lama de outra escala. Ela andou mais de cento e vinte quilômetros e entrou no mar. E o que ela deixou para trás é um chão: plano, fértil, fácil de construir. Hoje há cidades inteiras em cima dele. Este episódio é sobre por que uma montanha vira lama, e por que essa lama virou o chão de uma cidade.

O vulcão mais vigiado pela lama 0:46

O Rainier tem quatro mil trezentos e noventa e dois metros. Fica a menos de cem quilômetros de Seattle, e a uns setenta de Tacoma. É a montanha com mais geleiras dos Estados Unidos, fora do Alasca. Na lista de ameaça vulcânica do Serviço Geológico dos Estados Unidos, ele é o terceiro do país. E o motivo não é a lava. É a lama.

Gelo, água e rocha solta 1:09

Este outro fluxo foi filmado pelo Serviço Geológico em dois mil e um, numa ravina do Rainier. Rocha solta e água, descendo juntas. Numa montanha coberta de gelo, a água nunca falta. E a neve também desce: esta avalanche foi filmada pelo serviço de parques em mil novecentos e setenta e três. O que faltava, há cinco mil e seiscentos anos, era a montanha inteira ceder.

O cume desaba: a ferradura 1:35

E ela cedeu. O cume e o flanco nordeste do Rainier desabaram: entre dois e três quilômetros cúbicos de rocha. A cicatriz foi uma cratera em ferradura, com um vírgula oito quilômetros de largura, aberta para o nordeste. Quase do tamanho da que o Santa Helena abriu em mil novecentos e oitenta. Erupções depois encheram essa cratera de lava, a mais recente há uns dois mil e duzentos anos. Por isso, o cume de hoje não mostra a ferradura.

A rocha apodrecida por dentro 2:05

Por que ela desabou? Porque, por dentro, já não era rocha firme. Durante milhares de anos, água quente e ácida circulou pelo cone, e foi trocando os minerais da lava por argila e pirita. Em muitas pedras do depósito, a pirita ocupa de cinco a dez por cento do volume. Uma montanha assim é argila molhada empilhada, com gelo por cima.

Avalanche que vira lama 2:28

E aqui está a diferença que decide tudo. Em mil novecentos e oitenta, o flanco do Santa Helena caiu como avalanche de rocha, e parou a vinte e nove quilômetros da cratera. O do Rainier também começou como avalanche. Mas, a menos de dois quilômetros da origem, já tinha virado outra coisa: uma lama encharcada e cheia de argila. E lama com argila não para onde a pedra para. Ela andou mais de cento e vinte quilômetros.

O vale cheio, medido no lidar 2:57

Ela desceu pelo vale do White River. Este é um corte do vale em Greenwater, uns quarenta e cinco quilômetros abaixo do cume, medido por nós no lidar do Serviço Geológico. O fundo tem uns dois quilômetros de largura. Nesse trecho, a marca que a lama deixou nas encostas fica, em média, uns cem metros acima do rio. Cem metros de lama, de uma parede à outra: aqui, dois vírgula seis quilômetros de largura.

167 km/h 3:28

E a que velocidade? A dez quilômetros do cume, num morro chamado Goat Island Mountain, a lama subiu cento e dez metros pela encosta, e deixou depósito lá em cima. Para subir isso só com o próprio embalo, ela precisava de quarenta e seis metros por segundo. Fizemos a conta: são uns cento e sessenta e sete quilômetros por hora. Em Greenwater, ainda subiu dezoito metros num divisor de águas: uns sessenta e oito quilômetros por hora.

Doze Amazonas 3:57

Com a área do vale e a velocidade, dá para estimar a vazão. O relatório do Serviço Geológico chega a uns dois vírgula seis milhões de metros cúbicos por segundo, perto de onde os dois braços do rio se juntam. No nosso corte, a conta dá entre dois vírgula quatro e cinco vírgula quatro milhões, conforme a altura da lama que se use. O Amazonas, na foz, despeja uns duzentos e seis mil. Enquanto a onda passava, o vale levava mais de doze Amazonas de lama.

As cachoeiras de lama 4:30

Mais abaixo, em Mud Mountain, o vale aperta numa garganta de só trezentos metros de largura. A lama não coube. Ela transbordou para os terraços dos lados, de até cento e dez metros de altura, e seguiu para o oeste por cima deles. Na beira dos terraços, despencou em duas cachoeiras de lama: a primeira, com mais de seis quilômetros de largura e oitenta metros de altura; a segunda, com mais de três quilômetros e cento e dez metros.

A planície, medida no lidar 4:59

Depois disso, ela chegou à planície, e se espalhou. Este é o chão de Mud Mountain até Auburn, medido por nós no lidar, ao longo de vinte e sete quilômetros. Passada a saída do vale, são quinze quilômetros de rampa suave, caindo uns sete metros por quilômetro. No fim, um degrau de uns sessenta e cinco metros até o vale de Auburn. Quem anda ali vê um campo plano, com a montanha no fundo. Está andando em cima da lama.

O depósito por dentro 5:32

Onde o rio cortou, dá para ver por dentro. Esta é a margem do White River, e esta, uma pedreira em Corliss. A massa é cinzenta, sem camadas, com pedras de todos os tamanhos misturadas na argila. No eixo da planície, o depósito tem de um metro e meio a vinte e cinco metros de espessura. E na pedreira de Corliss ainda saem do barranco troncos meio queimados da floresta que ela enterrou.

As cidades em cima da lama 5:57

Em cima desse chão estão hoje Enumclaw, Buckley, Auburn, Sumner, Puyallup e Orting, inteiras ou em parte. Este é o mapa do Serviço Geológico: em laranja, o Osceola, que é o nome desta lama. Ela cobriu mais de duzentos e quarenta quilômetros quadrados de planície, e mais cento e sessenta debaixo d'água. Entrou nas baías de Puget Sound e andou mais de vinte quilômetros sob o mar. Uma delas, Commencement Bay, é hoje o porto de Tacoma.

O rio que mudou de lugar 6:27

A lama também tirou um rio do lugar. Antes dela, o White River descia para o sudoeste e se juntava ao Puyallup em Orting. A lama entupiu esse caminho. Quando o rio voltou a correr, foi para o noroeste, rumo a Auburn, por cima do meio do depósito. Num chão assim, plano e novo, um rio não tem leito garantido.

1906: o tronco que mudou o rio 6:49

Em catorze de novembro de mil novecentos e seis, isso aconteceu de novo. Perto de Auburn, um entupimento de troncos empurrou o White River inteiro para um riacho vizinho, o Stuck, que corria para o sul. Em uma noite, o rio passou a correr para o lado de Puyallup e de Tacoma, e as enchentes foram junto. O engenheiro do Exército chamado para resolver escreveu que a natureza tinha mudado o curso, e que era mais simples manter do que mudar de novo. Uma barragem de desvio, construída a partir de mil novecentos e catorze, deixou o rio onde os troncos o tinham posto.

As outras lamas do Rainier 7:25

E a lama não desceu uma vez só. O Osceola é o maior: pelo menos dez vezes maior que qualquer outro lahar do Rainier nos últimos dez mil anos. Lahar é o nome que os geólogos dão a essa lama de vulcão. Mas há outros. O Round Pass, há uns dois mil e seiscentos anos, pelo vale do Puyallup. O National, há uns dois mil e duzentos, que desceu o vale do Nisqually. E o Electron, por volta do ano mil e quinhentos.

O Electron: sem erupção 7:53

O Electron é o que mais preocupa os geólogos, por um motivo: não houve erupção. Um pedaço da encosta oeste, perto do Sunset Amphitheater, simplesmente cedeu, de rocha alterada. A lama desceu uns cem quilômetros e entrou na planície com mais de trinta metros de altura. Orting está em cima dela. E um desabamento sem erupção pode não dar aviso nenhum antes de começar.

50 minutos até Orting 8:18

Por isso, os vales do Carbon e do Puyallup têm sensores que escutam a lama, ligados a sirenes. Pelos modelos do Serviço Geológico, um lahar grande chegaria a Orting em cinquenta minutos. Mais de noventa mil pessoas moram nas zonas de risco. Em março de dois mil e vinte e quatro, mais de quarenta e cinco mil estudantes treinaram a fuga a pé. Então esta é a forma do lugar: um vulcão de gelo, com o miolo apodrecido por água quente, e aos pés dele uma planície tão plana que parece feita para cidades. Ela foi feita de uma vez, pela própria montanha que aparece no fundo da paisagem.

Yellowstone, junho de 2022 8:57

No próximo episódio, outro rio que muda de lugar de uma vez: o Yellowstone, em junho de dois mil e vinte e dois. Na estação de Corwin Springs, que mede o rio há mais de cem anos, o pico passou setenta por cento acima de qualquer outro já registrado. E uma estrada inteira desapareceu dentro de um cânion.

Descrição e fontes

O Rainier, 4.392 m, é o vulcão com mais geleiras dos EUA fora do Alasca e o 3º da lista de ameaça muito alta do USGS — e não pela lava. Há ~5.600 anos, o cume e o flanco nordeste desabaram (2 a 3 km³), deixando uma cratera em ferradura de 1,8 km aberta para o nordeste, quase do tamanho da do Santa Helena em 1980. A diferença está por dentro: água quente e ácida tinha transformado a rocha em argila e pirita, e a avalanche virou lama a menos de 2 km da origem. O Osceola encheu o vale do White River até uns 100 m acima do rio — no nosso corte do lidar, em Greenwater, 2,6 km de parede a parede. Subiu 110 m num morro a 10 km do cume, o que pede uns 167 km/h (conta nossa); o USGS estima ~2,6 milhões de m³/s, mais de doze vezes o Amazonas na foz. Em Mud Mountain, a garganta de 300 m não deu conta: a lama transbordou para os terraços e caiu em duas cachoeiras de lama de 80 e 110 m. Depois, esparramou numa planície que desce uns 7 m por km (medido por nós), cobriu mais de 240 km² em terra e 160 debaixo d'água, e andou mais de 20 km sob o mar. A lama também mudou o curso do White River — e em 1906 um entupimento de troncos o mudou de novo. O Electron, por volta de 1500, desceu sem erupção nenhuma. Hoje, sensores escutam a lama e um lahar grande chegaria a Orting em ~50 minutos.

FONTES

PRANCHAS DE ACERVO — documentos em domínio público, com autor, acervo e licença.

  • Ron Clausen - o Rainier visto de Enumclaw, 2017 - CC0 - Wikimedia Commons | CC0
  • Ron Clausen - o Rainier visto do norte, 2017 - CC0 - Wikimedia Commons | CC0
  • Foto de astronauta ISS056-E-85160, 8/7/2018 - NASA - Wikimedia Commons | Public domain
  • Foto de astronauta ISS069-E-61159, 2023 - NASA/JSC | NASA / JSC | Public Domain (NASA)
  • Foto de astronauta ISS062-E-39503, Jessica Meir - NASA/JSC | NASA / JSC | Public Domain (NASA)

... e mais 10 prancha(s), cada uma creditada em tela no vídeo e listada no manifesto deste projeto.

Vídeo: fluxo de detritos do riacho Tahoma (NPS, 13/8/2015, via NPGallery); fluxo de 2001 no Rainier (USGS, do vídeo Mount Rainier Lahars, 2022); avalanche de neve de 1973 (NPS, filme Fire and Ice); Carbon River, 2011 (NPS). Domínio público; créditos em tela.

Fotografias: USGS (David John, Lyn Topinka), NPS (Steve Redman, Loren Lane), NASA/JSC (fotos de astronauta) e autores do Wikimedia Commons em domínio público ou CC0 (Ron Clausen, Broran28, Murderbike).

Os diagramas são desenhados em código a partir dos números citados — nenhum é imagem gerada.

Números nossos: v = √(2gh) nas duas subidas; corte do vale em Greenwater e perfil de Mud Mountain a Auburn (lidar USGS/EPQS); 2,6 milhões ÷ 206 mil m³/s ≈ 12,6 Amazonas.

#geologia #ciência #vulcão