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Santa Helena: por que o vulcão se abriu de lado

16 de outubro de 2026 · Duração 9:20 · Assistir no YouTube

Em 18 de maio de 1980, o Monte Santa Helena perdeu uns 400 metros do topo em minutos, e a cratera que ficou não aponta para cima: é uma ferradura aberta para o norte. A explosão não abriu a montanha. Um deslizamento abriu — o maior já registrado — e a explosão saiu pela porta que ele deixou.

Capítulos

  1. 0:00 A filmagem de 18 de maio
  2. 0:21 O que falta no vídeo: o topo
  3. 0:55 Um cone quase perfeito
  4. 1:16 O vale e o acordar, março de 1980
  5. 1:40 O flanco norte incha
  6. 2:07 O criptodomo
  7. 2:28 8h32: o flanco escorrega
  8. 2:49 O maior deslizamento registrado
  9. 3:11 A tampa e a explosão lateral
  10. 3:51 O corte medido: uma ferradura
  11. 4:26 Quatrocentos metros de cume
  12. 4:49 Para onde a montanha foi
  13. 5:20 39 metros de entulho
  14. 5:57 Os montículos: pedaços da montanha
  15. 6:43 O Spirit Lake
  16. 7:07 Dez minutos
  17. 7:30 Um metro de queda para onze de caminho
  18. 8:00 A montanha se refaz
  19. 8:28 A cratera aponta para onde a montanha foi
  20. 8:55 A mesma ferradura no Rainier

Transcrição

A filmagem de 18 de maio 0:00

Esta filmagem é de dezoito de maio de mil novecentos e oitenta. Foi feita de um avião por um geólogo do Serviço Geológico dos Estados Unidos, uma hora depois de tudo começar. Embaixo da nuvem está o Monte Santa Helena, no estado de Washington. A coluna de cinza passou de vinte e quatro quilômetros de altura.

O que falta no vídeo: o topo 0:21

Mas o mais estranho deste vídeo não é a nuvem. É o que falta nele: o topo da montanha. Na véspera, o cume estava a dois mil novecentos e cinquenta metros. Naquela manhã, em minutos, ele perdeu uns quatrocentos. E a boca que ficou não aponta para cima, como a de um vulcão de desenho. Aponta para o lado. Este episódio é sobre por que um vulcão se abre de lado. E a resposta não começa com fogo. Começa com um deslizamento de terra.

Um cone quase perfeito 0:55

O Santa Helena fica na cordilheira das Cascatas, no noroeste dos Estados Unidos, numa fila de vulcões que vai do Canadá à Califórnia. Até mil novecentos e oitenta, era um cone quase perfeito, coberto de neve, com um lago aos pés, o Spirit Lake. A última erupção tinha terminado em mil oitocentos e cinquenta e sete.

O vale e o acordar, março de 1980 1:16

Este sobrevoo foi montado pela NASA com imagem de satélite do ano dois mil sobre o relevo. Embaixo, o vale do rio Toutle. No fundo, a montanha. Guarde este vale: é para dentro dele que ela vai cair. Em março de mil novecentos e oitenta, a montanha acordou: terremotos que, em semanas, passaram de dez mil, e explosões de vapor no cume.

O flanco norte incha 1:40

O lado norte estava inchando. Uma área de um quilômetro e meio por dois quilômetros da encosta andava para o norte, de um metro e meio a dois metros e meio por dia. Os geólogos mediam isso todos os dias, com instrumentos de topografia. Em dezessete de maio, aquele flanco já tinha avançado uns cento e quarenta metros. Era uma montanha inteira mudando de forma, em semanas, diante dos instrumentos.

O criptodomo 2:07

O que empurrava era magma. Ele tinha subido por dentro da montanha e parado debaixo do flanco norte, sem sair. Os geólogos chamam isso de criptodomo: um domo de lava escondido. Tinha uns cento e dez milhões de metros cúbicos, e estava deixando a encosta cada vez mais íngreme, como um punho empurrando um lençol por baixo.

8h32: o flanco escorrega 2:28

Às oito e trinta e dois da manhã de dezoito de maio, um terremoto de magnitude cinco vírgula um sacudiu a montanha. Uns dez segundos depois, o flanco norte inteiro começou a escorregar. Não foi a explosão que abriu a montanha. Foi a montanha que se abriu, e a explosão veio depois.

O maior deslizamento registrado 2:49

Foi o maior deslizamento de terra já registrado. Dois vírgula cinco quilômetros cúbicos de rocha. O primeiro bloco a descer chegou a uns oitenta metros por segundo, quase trezentos quilômetros por hora. E ele não desceu sozinho: atrás dele vieram outros, um depois do outro, cada um arrancando um pedaço a mais da montanha.

A tampa e a explosão lateral 3:11

E aqui está o mecanismo inteiro. O flanco que escorregou era a tampa. Lá dentro, o magma e a água fervente das rochas estavam sob pressão, e de repente a tampa sumiu. A descompressão foi uma explosão, e ela saiu para o único lado aberto: o norte. A explosão lateral passou de quatrocentos e oitenta quilômetros por hora e devastou seiscentos quilômetros quadrados de floresta. Depois disso, a montanha ficou nove horas em erupção, pela abertura que o deslizamento tinha deixado. A cinza escureceu o céu de Spokane, a quatrocentos quilômetros dali. Cinquenta e sete pessoas morreram naquele dia.

O corte medido: uma ferradura 3:51

Esta é a forma que ficou, medida por nós no lidar do Serviço Geológico. Um corte de sul para norte, atravessando a cratera. Do lado sul, a parede ainda está de pé, a mais de dois mil e trezentos metros. No meio, um domo de lava, que vamos ver daqui a pouco. E do lado norte, a parede simplesmente não existe. A cratera mede um vírgula nove por dois vírgula nove quilômetros, e é uma ferradura aberta para o norte: a porta por onde a montanha saiu.

Quatrocentos metros de cume 4:26

O ponto mais alto que sobrou fica na borda sudoeste, a dois mil quinhentos e cinquenta metros, segundo o Serviço Geológico. No lidar, amostrando a cada trinta metros, nós achamos dois mil quinhentos e trinta e quatro. Antes, eram dois mil novecentos e cinquenta. Uns quatrocentos metros de montanha, que não sumiram. Foram para algum lugar.

Para onde a montanha foi 4:49

Foram para o vale do rio North Fork Toutle. A avalanche bateu numa serra ao norte, parte dela virou à esquerda, e desceu o vale em direção ao oeste. O depósito cobre sessenta e quatro quilômetros quadrados, e o caminho mais longo, da cratera até a ponta, tem vinte e nove quilômetros. Quase tudo numa faixa só, de vinte e seis quilômetros de comprimento, com meio quilômetro de largura nos trechos estreitos e cinco nos largos. Um rio de pedra, que encheu um vale de rio.

39 metros de entulho 5:20

Dá para fazer uma conta simples com esses números. Dois vírgula cinco quilômetros cúbicos espalhados por sessenta e quatro quilômetros quadrados dão, em média, trinta e nove metros de entulho por cima do vale antigo. Junto da serra onde a avalanche bateu, chega a cento e noventa e cinco. E há um detalhe que o relatório do Serviço Geológico mediu: a montanha, antes de sair, ocupava menos. Dois vírgula um quilômetros cúbicos de rocha viraram dois vírgula cinco de depósito. No caminho, ela se abriu uns vinte por cento.

Os montículos: pedaços da montanha 5:57

É por isso que o vale tem esta cara. Nos mapas feitos no verão de mil novecentos e oitenta, foram contados seiscentos e setenta e cinco montículos. O mais alto chega a setenta e três metros, a onze quilômetros da cratera. Não são morros que já estavam ali. São pedaços da montanha antiga, carregados quase inteiros e largados no caminho. Em alguns, dá para ver as camadas de rocha do cone, na mesma ordem em que estavam lá em cima. E eles não estão espalhados por acaso. Os maiores ficam entre dez e dezesseis quilômetros da cratera. Perto da ponta do depósito, quase todos são pequenos, com menos de quinze metros: a montanha foi se quebrando em pedaços menores conforme andava.

O Spirit Lake 6:43

Uma parte da avalanche entrou no Spirit Lake: uns quatrocentos e trinta milhões de metros cúbicos de rocha de uma vez. A água subiu a encosta do outro lado até duzentos e sessenta metros de altura, e o lago ficou coberto de troncos da floresta derrubada. O lago não escorreu vale abaixo, porque a própria avalanche o represou. Esta é a mesma vista, antes e dois anos depois.

Dez minutos 7:07

A avalanche inteira levou uns dez minutos para assentar. Os sismógrafos ficaram saturados por esse tempo, com o tremor da própria rocha andando. Dez minutos para fazer a forma de um vale de vinte e nove quilômetros. Do espaço, a cicatriz ainda aparece, mais de quarenta anos depois: a mancha clara saindo da cratera e descendo o vale para o oeste.

Um metro de queda para onze de caminho 7:30

E há um número que diz o quanto isso é estranho. Do cume antigo até o fim do depósito, a rocha desceu uns dois mil e seiscentos metros ao longo de vinte e nove quilômetros. Um metro de queda para cada onze de caminho. É uma rampa média de uns cinco graus. Um monte de cascalho seco não anda numa rampa dessas: ele para. Esta massa, encharcada de água, continuou andando por quilômetros.

A montanha se refaz 8:00

Depois do dia dezoito, a montanha começou a se refazer por dentro. Um domo de lava cresceu na cratera entre mil novecentos e oitenta e oitenta e seis. Outro, de dois mil e quatro a dois mil e oito, com uns noventa e dois milhões de metros cúbicos. Juntos, os dois reencheram cerca de sete por cento da cratera. E na sombra da ferradura nasceu uma geleira, que o domo novo partiu em dois braços e empurrou contra as paredes.

A cratera aponta para onde a montanha foi 8:28

Então esta é a forma do lugar. Um vulcão sem o topo, com a boca virada para o norte, e um vale de vinte e nove quilômetros cheio de pedaços da montanha. A forma não é a assinatura de uma explosão. É a de um deslizamento, que tirou a tampa de uma explosão. A cratera aponta para onde a montanha foi, e o vale guarda a montanha que saiu, em pedaços, na ordem em que ela caiu.

A mesma ferradura no Rainier 8:55

E esta forma não é única. No próximo episódio, a mesma ferradura em outra montanha da mesma cordilheira: o Monte Rainier. Há uns cinco mil e seiscentos anos, o topo dele desabou do mesmo jeito, e virou uma lama que desceu até onde hoje fica o porto de Tacoma. Há cidades inteiras construídas em cima dela.

Descrição e fontes

Em março de 1980 o Santa Helena acordou com mais de dez mil terremotos, e o flanco norte começou a inchar: uma área de 1,5 por 2 km andava de 1,5 a 2,5 metros por dia, empurrada por um criptodomo — magma parado dentro do cone, uns 0,11 km³. Até 17 de maio, uns 140 m de avanço. Às 8h32 do dia 18, um terremoto de magnitude 5,1 soltou o flanco inteiro: 2,5 km³ de rocha, o maior deslizamento de terra registrado, com o primeiro bloco a ~80 m/s. Sem a tampa, o magma e a água fervente das rochas descomprimiram de uma vez, e a explosão saiu para o lado aberto — 480 km/h, 600 km² de floresta derrubada. O cume caiu de 2.950 para 2.550 m, e a cratera, de 1,9 por 2,9 km, ficou aberta para o norte. Medimos esse corte no lidar do USGS. O que saiu foi parar no vale do North Fork Toutle: 64 km² de depósito, 29 km no caminho mais longo, uns 39 m de entulho em média (conta nossa), 675 montículos que são pedaços da montanha antiga, e uma rocha que se abriu uns 20% no caminho. Caiu ~2.600 m ao longo de 29 km — um metro de queda para cada onze de caminho. Desde então, dois domos de lava reencheram cerca de 7% da cratera, e na sombra da ferradura nasceu uma geleira.

FONTES

PRANCHAS DE ACERVO — documentos em domínio público, com autor, acervo e licença.

  • Harry Glicken, USGS/CVO - 17/5/1980, a véspera - Wikimedia Commons | Public domain
  • USGS - o cone e o Spirit Lake antes de 1980 - Wikimedia Commons | Public domain
  • U.S. Forest Service, Região Noroeste do Pacífico - 24/3/1980 - Wikimedia Commons | Public domain
  • Peter Lipman, USGS - o calombo do flanco norte, 27/4/1980 - Wikimedia Commons | Public domain
  • Austin Post, USGS - 18/5/1980 - Wikimedia Commons | Public domain
  • Lyn Topinka, USGS - a cratera vista de Harry’s Ridge, 19/5/1982 - Wikimedia Commons | Public domain
  • HCP, CC0 - a cratera e o terreno ao norte, 16/10/2022 - Wikimedia Commons | CC0
  • U.S. Forest Service, Região Noroeste do Pacífico - os montículos, 2011 - Wikimedia Commons | Public domain
  • U.S. Forest Service, Região Noroeste do Pacífico - os montículos, 2000 - Wikimedia Commons | Public domain
  • U.S. Forest Service, Região Noroeste do Pacífico - o rio Toutle cortando o depósito, 2000 - Wikimedia Commons | Public domain

... e mais 5 prancha(s), cada uma creditada em tela no vídeo e listada no manifesto deste projeto.

Vídeo: filme de 16 mm de Don Swanson (USGS, 18/5/1980); sobrevoo ASTER (NASA/JPL, via DVIDS); câmeras remotas do USGS/CVO (2004-2008); séries Landsat da NASA (SVS 15005 e NASA Goddard). Domínio público; créditos em tela.

Fotografias: USGS (Peter Lipman, Harry Glicken, Austin Post, Lyn Topinka), U.S. Forest Service, NASA/USGS Landsat, NASA Earth Observatory e NASA/JSC (domínio público); HCP (CC0), via Wikimedia Commons.

Os diagramas são desenhados em código a partir dos números citados — nenhum é imagem gerada.

Números nossos: corte da cratera (lidar USGS/EPQS, longitude 122,191° O); 2,5 km³ ÷ 64 km² ≈ 39 m de espessura média; queda de ~2.600 m em 29 km de caminho (~1/11).

#geologia #ciência #vulcão