Acadia: o mar do Maine já bateu 70 metros acima de hoje
Na costa do parque de Acadia, no Maine, as ondas quebravam há 14 mil anos 70 metros acima do nível de hoje — perto de Jordan Pond, no meio do que hoje é floresta. Alguns milhares de anos depois, o mar estava 55 metros abaixo. Quem se mexeu não foi só o oceano: foi o chão, voltando depois que um gelo de mais de mil metros saiu de cima dele.
Capítulos
- 0:00 A praia que ficava lá em cima
- 0:22 O avesso do Mauna Loa
- 0:48 Acadia, na ilha de Mount Desert
- 1:05 Um manto de gelo de mil metros
- 1:25 O chão cede sob o gelo
- 1:43 180 metros de chão rebaixado
- 2:10 O mar DeGeer e a argila Presumpscot
- 2:37 Jordan Pond
- 2:52 O corte medido, com o mar a +70 m
- 3:27 Como se mede um mar que sumiu
- 3:58 A terra sobe mais depressa que o mar
- 4:22 43 mm por ano
- 4:53 O mar a -55 m
- 5:23 A balança vira
- 5:54 Somes Sound, um vale afogado
- 6:13 Os últimos cinco mil anos
- 6:50 Glacier Bay: o rebote agora
- 7:29 Uma costa afogada e erguida
- 8:06 Uma corrida entre o mar e o chão
Transcrição
A praia que ficava lá em cima 0:00
Esta é a costa do parque de Acadia, no Maine, nos Estados Unidos. Granito rosa, ondas do Atlântico, e uma linha de praia que parece estar aqui desde sempre. Não está. Há uns catorze mil anos, as ondas quebravam lá em cima, no meio do que hoje é floresta, setenta metros acima do nível do mar de agora.
O avesso do Mauna Loa 0:22
E alguns milhares de anos depois, o mar estava cinquenta e cinco metros abaixo do nível de hoje. A mesma costa viu o mar descer cento e vinte e cinco metros, e depois voltar. Quem se mexeu não foi só o oceano. Foi o chão. No episódio anterior, uma montanha afundou o chão com o próprio peso. Este é o avesso: o que acontece com o chão quando o peso vai embora.
Acadia, na ilha de Mount Desert 0:48
Acadia ocupa quase toda a ilha de Mount Desert, na costa do Maine. Ali fica o monte Cadillac, o ponto mais alto de toda a costa atlântica dos Estados Unidos. As montanhas são de granito, redondas, com lagos entre elas e o mar entrando pelo meio da ilha.
Um manto de gelo de mil metros 1:05
Há uns vinte mil anos, tudo isso estava debaixo de gelo. Não uma geleira de vale: um manto contínuo, como o que cobre a Groenlândia hoje. O Serviço Geológico do Maine calcula mais de mil metros de espessura. Sobre Acadia, segundo o serviço de parques, talvez um quilômetro e seiscentos.
O chão cede sob o gelo 1:25
E gelo pesa. O mesmo equilíbrio de boia do episódio do Mauna Loa vale aqui. A regra que o serviço de parques usa: para cada noventa e um metros de gelo, o chão afunda uns trinta. Com mais de mil metros de gelo em cima, a crosta do Maine cedeu centenas de metros.
180 metros de chão rebaixado 1:43
Há uns catorze mil anos, o gelo já recuava, e o oceano do mundo inteiro ainda estava baixo: cento e dez metros abaixo do nível de hoje, porque muita água seguia presa nos mantos de gelo. Mesmo assim, no Maine, o mar batia setenta metros acima de hoje. Somando as duas coisas, fizemos a conta: o chão ainda estava uns cento e oitenta metros mais baixo do que está agora.
O mar DeGeer e a argila Presumpscot 2:10
Com o chão rebaixado, o mar entrou atrás do gelo que recuava. Os geólogos o chamam de mar DeGeer. Ele avançou mais de cem quilômetros para dentro do continente, até onde hoje ficam as cidades de Millinocket e Bingham. E deixou uma assinatura: uma argila marinha azul-acinzentada, a formação Presumpscot, depositada entre quinze e onze mil anos atrás, e que ainda aparece em barrancos por todo o Maine.
Jordan Pond 2:37
Em Acadia, dá para apontar onde ficava aquela praia. Este é Jordan Pond, um lago entre montanhas, no meio da ilha. Segundo o serviço de parques, a linha de costa de catorze mil anos atrás passava logo ao sul dele.
O corte medido, com o mar a +70 m 2:52
Medimos o terreno numa linha de norte a sul, atravessando a ilha por Jordan Pond e seguindo mar adentro por cinquenta quilômetros. Em terra, com o levantamento a laser do Serviço Geológico americano; no mar, com a grade de batimetria. A superfície do lago está a oitenta e três metros. A cota de setenta metros fica a uns quatrocentos metros ao sul da ponta do lago. Com o mar ali, a ilha era um punhado de montanhas saindo da água, e quase toda a floresta de hoje estava no fundo.
Como se mede um mar que sumiu 3:27
Como se sabe a altura de um mar que não existe mais? Pelos deltas. Um rio que chega ao mar despeja areia até a superfície da água, e o topo do delta fica plano, na altura exata do mar. O Maine está cheio desses topos planos, pendurados a dezenas de metros de altitude, longe da costa. Pineo Ridge, no leste do estado, é um desses deltas, largo e de topo plano. E as conchas marinhas presas na argila foram datadas por radiocarbono: é daí que vêm as idades.
A terra sobe mais depressa que o mar 3:58
Então o gelo terminou de sair, e o chão, sem o peso, começou a voltar. O oceano do mundo também subia, com o gelo derretendo. Mas no Maine a terra subiu mais depressa que o mar. E o resultado, visto da praia, foi o mar recuando. Segundo o Serviço Geológico do Maine, o nível do mar local chegou a cair quarenta e três milímetros por ano.
43 mm por ano 4:22
Para ter a escala desse número, baixamos a série do marégrafo de Portland, a maior cidade do Maine, que mede o mar desde mil novecentos e doze. Hoje, ali, o mar sobe dois milímetros por ano. No marégrafo de Bar Harbor, na própria ilha de Acadia, dois e meio, desde mil novecentos e quarenta e sete. No pico, a queda de catorze mil anos atrás era vinte e duas vezes mais rápida, e no sentido contrário: quatro centímetros por ano.
O mar a -55 m 4:53
A queda só parou uns cinquenta e cinco metros abaixo do nível de hoje, entre onze mil e dez mil e quinhentos anos atrás, segundo testemunhos de sedimento datados no fundo do golfo do Maine. No nosso perfil, esse mar baixo põe a praia uns vinte quilômetros ao sul da costa atual. Onde hoje há quarenta, cinquenta metros de água, havia terra seca, com praias, deltas e rios, que hoje estão afogados na plataforma.
A balança vira 5:23
Depois, a balança virou. O chão já tinha recuperado quase tudo e subia cada vez mais devagar, enquanto o oceano do mundo continuava enchendo com o degelo. O mar voltou a avançar sobre o Maine, a até vinte e dois milímetros por ano. Por volta de nove mil anos atrás, essa subida desacelerou muito. A hipótese do Serviço Geológico do Maine está na borda do antigo peso: longe do gelo, a crosta tinha se estufado para cima, e essa lombada também estava cedendo.
Somes Sound, um vale afogado 5:54
É esse mar que voltou que desenha a costa de hoje. Somes Sound, que quase corta a ilha ao meio, é um vale escavado pelo gelo até quarenta e seis metros abaixo da água atual, e depois inundado pelo mar. As ilhas em volta são topos de morros. Os vales entre elas são baías.
Os últimos cinco mil anos 6:13
Nos últimos cinco mil anos, o mar chegou perto de onde está, e foi ficando mais lento. As turfas de marisma de Wells, no sul do Maine, crescem na altura da maré alta e guardam esse ritmo: um vírgula dois milímetro por ano há quatro mil anos, meio milímetro há dois mil, e talvez dois décimos há mil. E há um registro que qualquer um vê: árvores mortas, cinzentas, ainda em pé na beira das marismas, afogadas pelo mar que sobe, e troncos mais antigos enterrados debaixo delas, com mais de cinco mil anos. O marégrafo de Portland mede hoje dois: dez vezes o ritmo de mil anos atrás.
Glacier Bay: o rebote agora 6:50
E esse rebote não é só história. Em Glacier Bay, no Alasca, o lugar do nosso segundo episódio, o gelo que derreteu nos últimos duzentos e cinquenta anos deixou o chão subindo até três centímetros por ano, o mais rápido já medido. Desde mais ou menos mil setecentos e setenta, o mar ali já recuou quase seis metros em relação à terra. Baixamos também o marégrafo de Juneau, ali perto. Desde mil novecentos e trinta e seis, o mar ali não sobe: cai treze milímetros e meio por ano. Um metro e vinte de chão saindo da água desde então.
Uma costa afogada e erguida 7:29
Por isso a costa do Maine tem duas caras ao mesmo tempo. Afogada, com vales virando baías e morros virando ilhas. E erguida, com deltas e argila do mar pendurados longe da praia, lá no alto. As duas são o mesmo processo, visto em momentos diferentes: o chão voltando mais depressa que o mar, e depois o mar voltando mais depressa que o chão. E a argila do mar antigo continua mexendo na forma da costa: os barrancos de argila Presumpscot recuam de meio metro a um metro por ano, medidos pelo Serviço Geológico do Maine. O fundo daquele mar antigo ainda está desmoronando.
Uma corrida entre o mar e o chão 8:06
A forma desta costa não é o lugar onde o mar parou. É o registro de uma corrida entre o oceano e o chão, que o chão venceu primeiro e o oceano venceu depois. No próximo episódio, uma forma que mudou em segundos, não em milênios: o Monte Santa Helena, nos Estados Unidos. Em dezoito de maio de mil novecentos e oitenta, a montanha perdeu os quatrocentos metros de cima, no maior deslizamento de terra já registrado.
Descrição e fontes
Há uns vinte mil anos, o Maine estava debaixo de um manto de gelo com mais de mil metros de espessura (sobre Acadia, talvez 1,6 km), e a crosta cedeu centenas de metros. Há cerca de 14 mil anos, com o oceano do mundo ainda 110 m abaixo do atual, o mar no Maine batia 70 m ACIMA de hoje: somando as duas coisas, o chão ainda estava uns 180 m rebaixado. O mar entrou mais de 100 km continente adentro e deixou a argila marinha Presumpscot. Em Acadia, a linha de costa passava logo ao sul de Jordan Pond — e medimos o terreno de norte a sul (lidar do USGS em terra, batimetria GMRT no mar) para pôr esse mar no corte. Depois, a terra subiu mais depressa que o oceano: o nível do mar local caiu até 43 mm por ano, vinte e duas vezes o ritmo com que ele sobe hoje em Portland, até parar uns 55 m abaixo do atual, entre 11 e 10,5 mil anos atrás, com a praia uns 20 km mar adentro. Aí a balança virou, o mar voltou (até 22 mm/ano) e afogou os vales — Somes Sound é um vale do gelo inundado. O mesmo rebote acontece hoje em Glacier Bay, no Alasca: no marégrafo de Juneau o mar cai 13,5 mm por ano desde 1936.
FONTES
- Kelley, J.T., Dickson, S.M. & Belknap, D.F. (1996). Maine's History of Sea-Level Changes. Maine Geological Survey. https://www.maine.gov/dacf/mgs/explore/marine/facts/sealevel.pdf
- NPS. NPS Geodiversity Atlas — Acadia National Park, Maine. https://www.nps.gov/articles/nps-geodiversity-atlas-acadia-national-park-maine.htm
- Barnhardt, W.A., Gehrels, W.R. & Kelley, J.T. (1995). Late Quaternary relative sea-level change in the western Gulf of Maine: evidence for a migrating glacial forebulge. Geology 23(4). https://doi.org/10.1130/0091-7613(1995)023<0317:LQRSLC>2.3.CO;2
- Maine Geological Survey. Somes Sound, Mount Desert Island. https://digitalmaine.com/cgi/viewcontent.cgi?article=1312&context=mgs_publications
- Larsen, C.F. et al. (2005). Rapid viscoelastic uplift in southeast Alaska caused by post-Little Ice Age glacial retreat. Earth and Planetary Science Letters 237. https://doi.org/10.1016/j.epsl.2005.06.032
- USGS. A ground penetrating radar investigation of a glacial-marine ice-contact delta, Pineo Ridge, eastern coastal Maine. https://pubs.usgs.gov/publication/70035407
- NOAA CO-OPS. Médias mensais do nível do mar, estações 8418150 (Portland), 8413320 (Bar Harbor) e 9452210 (Juneau). https://tidesandcurrents.noaa.gov
- USGS 3DEP — Elevation Point Query Service. https://epqs.nationalmap.gov
- GMRT — Global Multi-Resolution Topography (Ryan et al., 2009). https://www.gmrt.org
PRANCHAS DE ACERVO — documentos em domínio público, com autor, acervo e licença.
- Bar Harbor vista do monte Cadillac - Staryu - Wikimedia Commons - CC0 | CC0
- Jordan Pond e os Bubbles - NPS / Victoria Stauffenberg - Wikimedia Commons | Public domain
- Costa do Maine vista da Estação Espacial, 7/3/2003 - NASA/JSC - Wikimedia Commons | Public domain
- Otter Cliff - NPS / Matthew Lambert - Wikimedia Commons | Public domain
- Somes Sound - James St. John - Wikimedia Commons - CC BY 2.0 | CC BY 2.0
- Valley Cove, Somes Sound, estereograma de B. Bradley, c. 1870-1880 - Wikimedia Commons | Public domain
- Mount Desert e a baía, imagem de satélite - NASA/GSFC | NASA / GSFC | Public Domain (NASA)
... e mais 3 prancha(s), cada uma creditada em tela no vídeo e listada no manifesto deste projeto.
Vídeo: NPS / Parque Nacional de Acadia (NPGallery) e NASA Goddard / Landsat (domínio público; créditos em tela). O gelo mostrado é o da Groenlândia de hoje.
Fotografias: NPS, NASA/JPL, NASA/GSFC, NASA/JSC e B. Bradley (domínio público); James St. John (CC BY 2.0); Thomsonmg2000 e Staryu (CC0), via Wikimedia Commons.
Os diagramas são desenhados em código a partir dos números citados — nenhum é imagem gerada.
Números nossos: corte de Mount Desert (lidar USGS/EPQS em terra, grade GMRT no mar, longitude 68,255° O); 110 + 70 = 180 m de chão rebaixado; tendências dos marégrafos NOAA 8418150 (Portland), 8413320 (Bar Harbor) e 9452210 (Juneau), médias mensais.