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Acadia: o mar do Maine já bateu 70 metros acima de hoje

11 de outubro de 2026 · Duração 8:37 · Assistir no YouTube

Na costa do parque de Acadia, no Maine, as ondas quebravam há 14 mil anos 70 metros acima do nível de hoje — perto de Jordan Pond, no meio do que hoje é floresta. Alguns milhares de anos depois, o mar estava 55 metros abaixo. Quem se mexeu não foi só o oceano: foi o chão, voltando depois que um gelo de mais de mil metros saiu de cima dele.

Capítulos

  1. 0:00 A praia que ficava lá em cima
  2. 0:22 O avesso do Mauna Loa
  3. 0:48 Acadia, na ilha de Mount Desert
  4. 1:05 Um manto de gelo de mil metros
  5. 1:25 O chão cede sob o gelo
  6. 1:43 180 metros de chão rebaixado
  7. 2:10 O mar DeGeer e a argila Presumpscot
  8. 2:37 Jordan Pond
  9. 2:52 O corte medido, com o mar a +70 m
  10. 3:27 Como se mede um mar que sumiu
  11. 3:58 A terra sobe mais depressa que o mar
  12. 4:22 43 mm por ano
  13. 4:53 O mar a -55 m
  14. 5:23 A balança vira
  15. 5:54 Somes Sound, um vale afogado
  16. 6:13 Os últimos cinco mil anos
  17. 6:50 Glacier Bay: o rebote agora
  18. 7:29 Uma costa afogada e erguida
  19. 8:06 Uma corrida entre o mar e o chão

Transcrição

A praia que ficava lá em cima 0:00

Esta é a costa do parque de Acadia, no Maine, nos Estados Unidos. Granito rosa, ondas do Atlântico, e uma linha de praia que parece estar aqui desde sempre. Não está. Há uns catorze mil anos, as ondas quebravam lá em cima, no meio do que hoje é floresta, setenta metros acima do nível do mar de agora.

O avesso do Mauna Loa 0:22

E alguns milhares de anos depois, o mar estava cinquenta e cinco metros abaixo do nível de hoje. A mesma costa viu o mar descer cento e vinte e cinco metros, e depois voltar. Quem se mexeu não foi só o oceano. Foi o chão. No episódio anterior, uma montanha afundou o chão com o próprio peso. Este é o avesso: o que acontece com o chão quando o peso vai embora.

Acadia, na ilha de Mount Desert 0:48

Acadia ocupa quase toda a ilha de Mount Desert, na costa do Maine. Ali fica o monte Cadillac, o ponto mais alto de toda a costa atlântica dos Estados Unidos. As montanhas são de granito, redondas, com lagos entre elas e o mar entrando pelo meio da ilha.

Um manto de gelo de mil metros 1:05

Há uns vinte mil anos, tudo isso estava debaixo de gelo. Não uma geleira de vale: um manto contínuo, como o que cobre a Groenlândia hoje. O Serviço Geológico do Maine calcula mais de mil metros de espessura. Sobre Acadia, segundo o serviço de parques, talvez um quilômetro e seiscentos.

O chão cede sob o gelo 1:25

E gelo pesa. O mesmo equilíbrio de boia do episódio do Mauna Loa vale aqui. A regra que o serviço de parques usa: para cada noventa e um metros de gelo, o chão afunda uns trinta. Com mais de mil metros de gelo em cima, a crosta do Maine cedeu centenas de metros.

180 metros de chão rebaixado 1:43

Há uns catorze mil anos, o gelo já recuava, e o oceano do mundo inteiro ainda estava baixo: cento e dez metros abaixo do nível de hoje, porque muita água seguia presa nos mantos de gelo. Mesmo assim, no Maine, o mar batia setenta metros acima de hoje. Somando as duas coisas, fizemos a conta: o chão ainda estava uns cento e oitenta metros mais baixo do que está agora.

O mar DeGeer e a argila Presumpscot 2:10

Com o chão rebaixado, o mar entrou atrás do gelo que recuava. Os geólogos o chamam de mar DeGeer. Ele avançou mais de cem quilômetros para dentro do continente, até onde hoje ficam as cidades de Millinocket e Bingham. E deixou uma assinatura: uma argila marinha azul-acinzentada, a formação Presumpscot, depositada entre quinze e onze mil anos atrás, e que ainda aparece em barrancos por todo o Maine.

Jordan Pond 2:37

Em Acadia, dá para apontar onde ficava aquela praia. Este é Jordan Pond, um lago entre montanhas, no meio da ilha. Segundo o serviço de parques, a linha de costa de catorze mil anos atrás passava logo ao sul dele.

O corte medido, com o mar a +70 m 2:52

Medimos o terreno numa linha de norte a sul, atravessando a ilha por Jordan Pond e seguindo mar adentro por cinquenta quilômetros. Em terra, com o levantamento a laser do Serviço Geológico americano; no mar, com a grade de batimetria. A superfície do lago está a oitenta e três metros. A cota de setenta metros fica a uns quatrocentos metros ao sul da ponta do lago. Com o mar ali, a ilha era um punhado de montanhas saindo da água, e quase toda a floresta de hoje estava no fundo.

Como se mede um mar que sumiu 3:27

Como se sabe a altura de um mar que não existe mais? Pelos deltas. Um rio que chega ao mar despeja areia até a superfície da água, e o topo do delta fica plano, na altura exata do mar. O Maine está cheio desses topos planos, pendurados a dezenas de metros de altitude, longe da costa. Pineo Ridge, no leste do estado, é um desses deltas, largo e de topo plano. E as conchas marinhas presas na argila foram datadas por radiocarbono: é daí que vêm as idades.

A terra sobe mais depressa que o mar 3:58

Então o gelo terminou de sair, e o chão, sem o peso, começou a voltar. O oceano do mundo também subia, com o gelo derretendo. Mas no Maine a terra subiu mais depressa que o mar. E o resultado, visto da praia, foi o mar recuando. Segundo o Serviço Geológico do Maine, o nível do mar local chegou a cair quarenta e três milímetros por ano.

43 mm por ano 4:22

Para ter a escala desse número, baixamos a série do marégrafo de Portland, a maior cidade do Maine, que mede o mar desde mil novecentos e doze. Hoje, ali, o mar sobe dois milímetros por ano. No marégrafo de Bar Harbor, na própria ilha de Acadia, dois e meio, desde mil novecentos e quarenta e sete. No pico, a queda de catorze mil anos atrás era vinte e duas vezes mais rápida, e no sentido contrário: quatro centímetros por ano.

O mar a -55 m 4:53

A queda só parou uns cinquenta e cinco metros abaixo do nível de hoje, entre onze mil e dez mil e quinhentos anos atrás, segundo testemunhos de sedimento datados no fundo do golfo do Maine. No nosso perfil, esse mar baixo põe a praia uns vinte quilômetros ao sul da costa atual. Onde hoje há quarenta, cinquenta metros de água, havia terra seca, com praias, deltas e rios, que hoje estão afogados na plataforma.

A balança vira 5:23

Depois, a balança virou. O chão já tinha recuperado quase tudo e subia cada vez mais devagar, enquanto o oceano do mundo continuava enchendo com o degelo. O mar voltou a avançar sobre o Maine, a até vinte e dois milímetros por ano. Por volta de nove mil anos atrás, essa subida desacelerou muito. A hipótese do Serviço Geológico do Maine está na borda do antigo peso: longe do gelo, a crosta tinha se estufado para cima, e essa lombada também estava cedendo.

Somes Sound, um vale afogado 5:54

É esse mar que voltou que desenha a costa de hoje. Somes Sound, que quase corta a ilha ao meio, é um vale escavado pelo gelo até quarenta e seis metros abaixo da água atual, e depois inundado pelo mar. As ilhas em volta são topos de morros. Os vales entre elas são baías.

Os últimos cinco mil anos 6:13

Nos últimos cinco mil anos, o mar chegou perto de onde está, e foi ficando mais lento. As turfas de marisma de Wells, no sul do Maine, crescem na altura da maré alta e guardam esse ritmo: um vírgula dois milímetro por ano há quatro mil anos, meio milímetro há dois mil, e talvez dois décimos há mil. E há um registro que qualquer um vê: árvores mortas, cinzentas, ainda em pé na beira das marismas, afogadas pelo mar que sobe, e troncos mais antigos enterrados debaixo delas, com mais de cinco mil anos. O marégrafo de Portland mede hoje dois: dez vezes o ritmo de mil anos atrás.

Glacier Bay: o rebote agora 6:50

E esse rebote não é só história. Em Glacier Bay, no Alasca, o lugar do nosso segundo episódio, o gelo que derreteu nos últimos duzentos e cinquenta anos deixou o chão subindo até três centímetros por ano, o mais rápido já medido. Desde mais ou menos mil setecentos e setenta, o mar ali já recuou quase seis metros em relação à terra. Baixamos também o marégrafo de Juneau, ali perto. Desde mil novecentos e trinta e seis, o mar ali não sobe: cai treze milímetros e meio por ano. Um metro e vinte de chão saindo da água desde então.

Uma costa afogada e erguida 7:29

Por isso a costa do Maine tem duas caras ao mesmo tempo. Afogada, com vales virando baías e morros virando ilhas. E erguida, com deltas e argila do mar pendurados longe da praia, lá no alto. As duas são o mesmo processo, visto em momentos diferentes: o chão voltando mais depressa que o mar, e depois o mar voltando mais depressa que o chão. E a argila do mar antigo continua mexendo na forma da costa: os barrancos de argila Presumpscot recuam de meio metro a um metro por ano, medidos pelo Serviço Geológico do Maine. O fundo daquele mar antigo ainda está desmoronando.

Uma corrida entre o mar e o chão 8:06

A forma desta costa não é o lugar onde o mar parou. É o registro de uma corrida entre o oceano e o chão, que o chão venceu primeiro e o oceano venceu depois. No próximo episódio, uma forma que mudou em segundos, não em milênios: o Monte Santa Helena, nos Estados Unidos. Em dezoito de maio de mil novecentos e oitenta, a montanha perdeu os quatrocentos metros de cima, no maior deslizamento de terra já registrado.

Descrição e fontes

Há uns vinte mil anos, o Maine estava debaixo de um manto de gelo com mais de mil metros de espessura (sobre Acadia, talvez 1,6 km), e a crosta cedeu centenas de metros. Há cerca de 14 mil anos, com o oceano do mundo ainda 110 m abaixo do atual, o mar no Maine batia 70 m ACIMA de hoje: somando as duas coisas, o chão ainda estava uns 180 m rebaixado. O mar entrou mais de 100 km continente adentro e deixou a argila marinha Presumpscot. Em Acadia, a linha de costa passava logo ao sul de Jordan Pond — e medimos o terreno de norte a sul (lidar do USGS em terra, batimetria GMRT no mar) para pôr esse mar no corte. Depois, a terra subiu mais depressa que o oceano: o nível do mar local caiu até 43 mm por ano, vinte e duas vezes o ritmo com que ele sobe hoje em Portland, até parar uns 55 m abaixo do atual, entre 11 e 10,5 mil anos atrás, com a praia uns 20 km mar adentro. Aí a balança virou, o mar voltou (até 22 mm/ano) e afogou os vales — Somes Sound é um vale do gelo inundado. O mesmo rebote acontece hoje em Glacier Bay, no Alasca: no marégrafo de Juneau o mar cai 13,5 mm por ano desde 1936.

FONTES

PRANCHAS DE ACERVO — documentos em domínio público, com autor, acervo e licença.

  • Bar Harbor vista do monte Cadillac - Staryu - Wikimedia Commons - CC0 | CC0
  • Jordan Pond e os Bubbles - NPS / Victoria Stauffenberg - Wikimedia Commons | Public domain
  • Costa do Maine vista da Estação Espacial, 7/3/2003 - NASA/JSC - Wikimedia Commons | Public domain
  • Otter Cliff - NPS / Matthew Lambert - Wikimedia Commons | Public domain
  • Somes Sound - James St. John - Wikimedia Commons - CC BY 2.0 | CC BY 2.0
  • Valley Cove, Somes Sound, estereograma de B. Bradley, c. 1870-1880 - Wikimedia Commons | Public domain
  • Mount Desert e a baía, imagem de satélite - NASA/GSFC | NASA / GSFC | Public Domain (NASA)

... e mais 3 prancha(s), cada uma creditada em tela no vídeo e listada no manifesto deste projeto.

Vídeo: NPS / Parque Nacional de Acadia (NPGallery) e NASA Goddard / Landsat (domínio público; créditos em tela). O gelo mostrado é o da Groenlândia de hoje.

Fotografias: NPS, NASA/JPL, NASA/GSFC, NASA/JSC e B. Bradley (domínio público); James St. John (CC BY 2.0); Thomsonmg2000 e Staryu (CC0), via Wikimedia Commons.

Os diagramas são desenhados em código a partir dos números citados — nenhum é imagem gerada.

Números nossos: corte de Mount Desert (lidar USGS/EPQS em terra, grade GMRT no mar, longitude 68,255° O); 110 + 70 = 180 m de chão rebaixado; tendências dos marégrafos NOAA 8418150 (Portland), 8413320 (Bar Harbor) e 9452210 (Juneau), médias mensais.

#geologia #ciência #eradogelo