The Repository A Forma do Lugar

Mauna Loa afundou o fundo do mar com o próprio peso

6 de outubro de 2026 · Duração 8:55 · Assistir no YouTube

O Mauna Loa, no Havaí, tem 4.170 metros acima do mar — e isso é a menor parte dele. Os flancos descem mais 5.000 metros até o fundo do oceano, e debaixo disso a sísmica encontrou outros 8.000 metros: o fundo do mar afundado pelo peso da própria montanha. Do cume à base verdadeira, 17.170 metros. E a ilha continua descendo: dá para medir num marégrafo.

Capítulos

  1. 0:00 A erupção de 2022
  2. 0:26 A menor parte da montanha
  3. 0:52 Mauna Loa, na Ilha Grande
  4. 1:10 75.000 km³
  5. 1:43 Medido a partir de onde?
  6. 2:05 Escutar a crosta
  7. 2:24 A Moho arqueada 8 km
  8. 2:47 17.170 metros
  9. 3:15 Por que o chão cede
  10. 3:40 A conta que não fecha
  11. 4:05 A placa dobra: fosso e arco
  12. 4:42 O terremoto de maio de 2026
  13. 5:08 Hilo afunda, Honolulu não
  14. 5:41 A régua do porto
  15. 5:55 1,4 mm por ano
  16. 6:33 Os recifes afogados de Kohala
  17. 7:34 O peso continua chegando
  18. 7:52 Para onde vão as ilhas
  19. 8:12 Uma montanha também é o buraco que ela faz

Transcrição

A erupção de 2022 0:00

Vinte e sete de novembro de dois mil e vinte e dois, onze e meia da noite. No cume do Mauna Loa, no Havaí, a lava rompe o chão da caldeira pela primeira vez em trinta e oito anos. A câmera térmica do observatório de vulcões registra tudo: primeiro uma fenda acesa, depois um campo inteiro de lava correndo. Trinta e oito anos era o silêncio mais longo já registrado neste vulcão.

A menor parte da montanha 0:26

Mauna Loa é o maior vulcão da Terra em volume. O cume fica a quatro mil cento e setenta metros acima do mar. Mas o que se vê é a menor parte da montanha. Debaixo dela, o fundo do oceano afundou oito quilômetros, empurrado pelo próprio peso do vulcão. Este episódio é sobre esse buraco — e sobre como dá pra medir, hoje, que ele continua afundando.

Mauna Loa, na Ilha Grande 0:52

Mauna Loa fica na Ilha Grande do Havaí, vizinho de Kīlauea, o vulcão do episódio anterior. A superfície dele cobre cinco mil e cem quilômetros quadrados. E quase tudo o que se vê é recente: noventa por cento dessa superfície é lava que saiu nos últimos quatro mil anos.

75.000 km³ 1:10

Repare no tamanho das pessoas sobre esse campo de lava. O volume do vulcão passa de setenta e cinco mil quilômetros cúbicos. A erupção de dois mil e vinte e dois despejou duzentos e trinta milhões de metros cúbicos de lava em catorze dias, medidos por um radar a bordo de um avião. Para montar a montanha inteira, seriam precisas mais de trezentas mil erupções como aquela. Ele começou no fundo do mar, entre seiscentos mil e um milhão de anos atrás, e só rompeu a superfície do oceano há uns trezentos mil.

Medido a partir de onde? 1:43

A altura oficial conta a partir do nível do mar. Só que a ilha não começa na praia. Os flancos do Mauna Loa descem mais cinco mil metros de água, até o fundo do oceano. Medido do fundo do mar vizinho, ele passa de nove mil metros. O Everest tem oito mil oitocentos e quarenta e nove, contados do nível do mar.

Escutar a crosta 2:05

E nem o fundo do mar é a base. Para achar onde uma montanha termina por baixo, não adianta cavar: é preciso escutar. Sismólogos do Serviço Geológico dos Estados Unidos mandaram ondas sísmicas através da crosta, embaixo da ilha, e mediram quanto tempo elas levavam para voltar.

A Moho arqueada 8 km 2:24

Na crosta, a onda anda até sete quilômetros por segundo. No manto, logo abaixo, passa de oito. Onde a velocidade muda está a fronteira entre os dois, que os geólogos chamam de Moho. Longe da ilha, ela fica numa profundidade regular. Debaixo do Mauna Loa, ela está arqueada para baixo em até oito quilômetros.

17.170 metros 2:47

Então a conta tem três parcelas. Quatro mil cento e setenta metros acima do mar. Cinco mil de flanco submerso. Oito mil de fundo rebaixado, num cone invertido que ninguém vai ver nunca. Dezessete mil cento e setenta metros, do cume até a base verdadeira: quase o dobro do Everest. E quase metade disso é um buraco que a própria montanha cavou.

Por que o chão cede 3:15

Por que o chão cede? Porque a crosta do oceano não está apoiada em algo rígido. Por baixo dela, o manto é rocha sólida, mas ao longo de milhares de anos ele escoa, como um fluido muito espesso. Uma montanha em cima dele vai afundando até que o peso fique equilibrado — como um bloco de madeira que afunda na água até boiar. Os geólogos chamam esse equilíbrio de isostasia.

A conta que não fecha 3:40

Fizemos essa conta de boia, com densidades de livro-texto para a rocha, o manto e a água do mar. Se o chão cedesse só exatamente embaixo do vulcão, ele teria de afundar entre trinta e cinquenta quilômetros para equilibrar todo esse peso. A sísmica mede oito. Falta alguma coisa na conta. E o que falta é a placa.

A placa dobra: fosso e arco 4:05

A placa do Pacífico é rígida. Em vez de afundar só debaixo da montanha, ela dobra, como uma régua com um peso no meio, e espalha a carga por centenas de quilômetros. Essa dobra está desenhada no fundo do mar. Medimos seiscentos quilômetros de profundidade, do cume para nordeste. Perto da ilha, o fundo desce a quase cinco mil e setecentos metros: é o fosso. A uns trezentos e cinquenta quilômetros, sobe para cerca de quatro mil e setecentos: é o arco, a placa empurrada para cima do outro lado da dobra.

O terremoto de maio de 2026 4:42

E a dobra não é silenciosa. Em vinte e dois de maio de dois mil e vinte e seis, às nove e quarenta e seis da noite, um terremoto de magnitude seis sacudiu a Ilha Grande, a uns vinte e três quilômetros de profundidade. Mais de sete mil pessoas relataram ter sentido, até em Niʻihau, na outra ponta do arquipélago. A causa, segundo o observatório: a placa do Pacífico se dobrando sob o peso das ilhas.

Hilo afunda, Honolulu não 5:08

Em mil novecentos e setenta, o geólogo James Moore mostrou que esse afundamento cobre uma zona de uns quatrocentos quilômetros de diâmetro em volta dos vulcões ativos da Ilha Grande. Honolulu, a mais de trezentos quilômetros dali, fica estável. Hilo, na costa do Mauna Loa, fica dentro da zona. E Moore achou mais uma coisa: o volume que afundou é muito maior do que todo o basalto que as erupções despejaram. Há peso escondido: magma que ficou por dentro da ilha, e vulcões que crescem debaixo d'água.

A régua do porto 5:41

E isso se vê num instrumento que não foi feito para vulcões: o marégrafo, a régua que mede a altura do mar no porto. O de Hilo funciona desde mil novecentos e vinte e sete. O de Honolulu, desde mil novecentos e onze.

1,4 mm por ano 5:55

Baixamos as duas séries mensais da agência oceânica dos Estados Unidos e calculamos a tendência nos mesmos mil e dezesseis meses. Em Honolulu, o mar sobe um vírgula oito milímetro por ano. Em Hilo, três vírgula dois. O oceano é o mesmo. A diferença, um vírgula quatro milímetro por ano, é a ilha descendo. Entre mil novecentos e quarenta e sete e mil novecentos e oitenta e três, a mesma conta dá dois vírgula quatro, o número que o observatório publicou. O ritmo muda. O sentido, não.

Os recifes afogados de Kohala 6:33

Um século de marégrafo é pouco. Para olhar mais longe, geólogos foram buscar amostras no fundo, ao largo de Kohala, o vulcão mais velho da ilha. Lá há uma escada de recifes de coral mortos, e coral de recife só cresce perto da superfície, onde há luz. Cada degrau foi, um dia, a beira do mar. Um recife a cento e cinquenta metros de profundidade se afogou há uns quinze mil anos. Morreu quando o fim da era do gelo fez o mar subir depressa e a água sobre ele passou de trinta, quarenta metros: luz de menos para o coral. A ilha, afundando, nunca deixou que ele voltasse. O mais fundo está a mil trezentos e trinta e cinco metros, com uns quatrocentos e sessenta e cinco mil anos. Dividindo a distância entre os dois pelo tempo entre os dois: dois vírgula seis milímetros por ano. É o número que a datação de seis desses recifes publicou em mil novecentos e noventa e um.

O peso continua chegando 7:34

E o peso continua chegando. Cada erupção empilha rocha nova em cima da ilha. Em dois mil e vinte e dois, a lava correu dezenove quilômetros e parou a menos de três da rodovia que atravessa o meio da ilha. A montanha cresce por cima e afunda por baixo, ao mesmo tempo.

Para onde vão as ilhas 7:52

A placa do Pacífico ainda carrega as ilhas para noroeste, para longe do ponto quente que as alimenta. Kauaʻi, bem a noroeste, tem rochas de cinco milhões e meio de anos e já está profundamente erodida. Depois dela, a cadeia continua debaixo d'água: montes submarinos, que já foram ilhas.

Uma montanha também é o buraco que ela faz 8:12

A forma do Mauna Loa não termina onde a montanha encontra o mar, nem onde encontra o fundo. Termina oito quilômetros abaixo disso, numa depressão que o próprio peso cavou, e numa dobra da placa que se espalha por centenas de quilômetros. Uma montanha também é o buraco que ela faz. No próximo episódio, o avesso disto: a costa do Maine, nos Estados Unidos, onde fica o parque de Acadia. Lá, o peso era gelo, com mais de mil metros de espessura. Quando ele derreteu, o mar chegou a bater setenta metros acima do nível de hoje. Depois, a terra subiu tão depressa que o mar recuou.

Descrição e fontes

Em 27 de novembro de 2022 o Mauna Loa voltou a entrar em erupção depois de 38 anos, o silêncio mais longo já registrado nele. É o maior vulcão da Terra em volume — mais de 75.000 km³, contra os 230 milhões de m³ que aquela erupção despejou em catorze dias (seriam mais de 300 mil erupções iguais para montar a montanha). A altura oficial, 4.170 m, conta a partir do nível do mar; os flancos descem mais 5.000 m de água, e medido do fundo do mar vizinho ele já passa do Everest. Mas nem o fundo do mar é a base: sismólogos do USGS, medindo ondas sísmicas através da crosta, acharam a fronteira com o manto (a Moho) arqueada até 8 km para baixo sob o vulcão — um cone invertido, enterrado. São 17.170 m do cume à base verdadeira, e quase metade disso é o buraco que a montanha cavou com o próprio peso. O mecanismo é isostasia, mas a nossa conta de boia (densidades de livro-texto) exigiria de 34 a 54 km de afundamento: a sísmica mede 8 porque a placa do Pacífico é rígida e dobra, espalhando o peso por centenas de quilômetros. A dobra aparece num perfil de batimetria que medimos do cume para nordeste — um fosso a quase 5.700 m e, a uns 350 km, um arco quase mil metros mais raso —, e range em terremotos profundos como o de magnitude 6 de 22 de maio de 2026. O afundamento continua: nos 1.016 meses em comum dos marégrafos da NOAA, o mar sobe 3,2 mm/ano em Hilo e 1,8 em Honolulu — a diferença é a ilha descendo. E os recifes de coral afogados ao largo de Kohala, de 150 a 1.335 m de profundidade, contam a mesma história por quase meio milhão de anos: 2,6 mm por ano.

FONTES

PRANCHAS DE ACERVO: as 9 são creditadas em tela no vídeo e listadas no manifesto deste projeto.

Vídeo: USGS, NOAA/NESDIS, CSU/CIRA e NASA Goddard, via Wikimedia Commons (domínio público; créditos em tela).

Fotografias: USGS, NASA, Civil Air Patrol (domínio público) e Dexter Perkins e Kaleodu (CC0), via Wikimedia Commons.

Os diagramas são desenhados em código a partir dos números citados — nenhum é imagem gerada.

Números nossos: tendências dos marégrafos NOAA 1617760 e 1612340 (médias mensais, 1927-2026); perfil de batimetria GMRT do cume para nordeste; conta de boia (Airy local, densidades de 2,8 / 3,3 / 1,03 t/m³, faixa de 34 a 54 km); taxa dos recifes com as duas pontas publicadas.

#geologia #ciência #vulcão