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A cratera de Kīlauea que afundou 500 metros — e depois virou lago

1 de outubro de 2026 · Duração 8:31 · Assistir no YouTube

Em 25 de julho de 2019, um piloto de helicóptero da USGS viu uma mancha verde no fundo de uma cratera ativa do vulcão Kīlauea, no Havaí. Água. Em quase 200 anos de registro escrito daquele vulcão, ninguém jamais tinha visto água ali — porque, um ano antes, o fundo da cratera tinha afundado 488 metros e alcançado, quase exatamente, a profundidade do lençol freático.

Capítulos

  1. 0:00 A mancha verde
  2. 0:24 Um vulcão não devia ter lago
  3. 0:48 Kīlauea e Halemaʻumaʻu
  4. 1:05 Antes de 2018: o lago de lava
  5. 1:24 1924: o mesmo gatilho, outro resultado
  6. 2:10 A erupção que drenou o cume
  7. 2:43 62 colapsos, um a cada 28 horas
  8. 3:24 488 metros mais fundo
  9. 3:47 Quase 600 metros abaixo da borda
  10. 4:16 A mancha vira poça
  11. 4:38 Como medir um poço vulcânico
  12. 5:12 O colapso encontrou o lençol freático
  13. 6:11 O lago cresce, 75 cm por semana
  14. 6:35 A lava volta, a água vira vapor
  15. 6:58 O lago de lava que veio depois
  16. 7:22 Hoje: erupções em episódios
  17. 7:55 Uma sequência de estados

Transcrição

A mancha verde 0:00

Vinte e cinco de julho de dois mil e dezenove. Um piloto de helicóptero sobrevoa o cume do vulcão Kīlauea, no Havaí, numa missão de rotina. Lá embaixo, no fundo de uma cratera ativa, ele vê uma mancha verde. Água. Em quase duzentos anos de registro escrito deste vulcão, ninguém jamais tinha visto água ali.

Um vulcão não devia ter lago 0:24

Um vulcão ativo não devia ter lago. O calor deveria vaporizar qualquer água antes dela se acumular. E, durante duzentos anos, foi exatamente assim. Este episódio não é sobre a água. É sobre o buraco que a recebeu — e sobre o número que explica por que ele a recebeu justamente ali, e justamente então.

Kīlauea e Halemaʻumaʻu 0:48

Kīlauea fica na Ilha Grande do Havaí, um dos vulcões mais ativos da Terra. No cume, uma caldeira larga guarda uma cratera menor, chamada Halemaʻumaʻu — na tradição havaiana, o lar da deusa do vulcão, Pele. É dentro dela que a história acontece.

Antes de 2018: o lago de lava 1:05

Antes de dois mil e dezoito, Halemaʻumaʻu era uma cratera de porte modesto: cerca de oitocentos e setenta por novecentos metros, e só oitenta e cinco metros de profundidade até o fundo. Desde dois mil e oito, um lago de lava ativo subia e descia lá dentro. Era a cratera que todo mundo conhecia.

1924: o mesmo gatilho, outro resultado 1:24

Isso já tinha acontecido antes — só que de outro jeito. Em maio de mil novecentos e vinte e quatro, depois de outro enxame de terremotos na zona de rift, o lago de lava de Halemaʻumaʻu drenou e o fundo da cratera começou a descer. Água subterrânea encontrou rocha ainda quente lá embaixo, e o resultado foram mais de cinquenta explosões a vapor em duas semanas e meia — blocos de até quatorze toneladas arremessados para fora da cratera. Uma pessoa morreu. Quando as explosões pararam, a cratera tinha dobrado de largura e ficava oito vezes mais funda do que antes. O mesmo gatilho de dois mil e dezoito ia se repetir. Mas, dessa vez, o resultado seria bem diferente.

A erupção que drenou o cume 2:10

Em maio de dois mil e dezoito, a Zona de Rift Leste Inferior do mesmo vulcão, a dezenas de quilômetros dali, começou a entrar em erupção. Fissuras se abriram entre bairros residenciais, jorrando lava. Ao longo de três meses, essa erupção cobriu trinta e cinco quilômetros quadrados com lava nova, destruiu mais de setecentas estruturas e criou trezentos e cinquenta e quatro hectares de terra nova onde antes havia oceano. E, por baixo da terra, estava drenando o mesmo reservatório de magma que sustentava o cume.

62 colapsos, um a cada 28 horas 2:43

Sem o magma por baixo para sustentá-lo, o chão do cume perdeu apoio. No dia dezessete de maio, uma explosão inicial lançou cinzas a mais de nove quilômetros de altura. Depois vieram os colapsos propriamente ditos: sessenta e dois deles, entre maio e agosto, cada um liberando energia equivalente a um terremoto de magnitude cinco ou mais, em média um a cada vinte e oito horas. Mais de sessenta mil terremotos no total. Dessa vez, sem explosão de rocha nem vítima — só um degrau a menos, repetido sessenta e duas vezes.

488 metros mais fundo 3:24

Quando a sequência parou, em dois de agosto, o resultado era outro vulcão. O fundo da cratera tinha afundado quatrocentos e oitenta e oito metros. O diâmetro tinha mais que dobrado. E lá embaixo não havia mais nada: nem lago de lava, nem chão visível de longe. Só um poço vazio, imenso.

Quase 600 metros abaixo da borda 3:47

Some os dois números que ninguém soma: oitenta e cinco metros, a profundidade antiga, mais quatrocentos e oitenta e oito, a queda de dois mil e dezoito. O novo fundo ficava a quase seiscentos metros abaixo da borda original. Por quase um ano, esse poço ficou seco.

A mancha vira poça 4:16

Foi nesse poço que o piloto viu a mancha verde, em julho de dois mil e dezenove. Semanas depois, no dia vinte e dois de agosto, já era uma poça de setenta por trinta metros, com três a cinco metros de profundidade. Água quente, cerca de setenta graus Celsius, turva de verde — enxofre e metais dissolvidos das rochas.

Como medir um poço vulcânico 4:38

Ninguém desceu até lá para medir. O poço era fundo e instável demais. Os cientistas instalaram um telêmetro a laser na borda oeste da cratera, medindo a distância até a água em contínuo. Câmeras térmicas, levadas por helicóptero quase na vertical, enxergavam o fundo do poço estreito. E, em janeiro de dois mil e vinte, um drone desceu um amostrador de água por um cabo de seis metros, com bandeirinhas coloridas amarradas a cada metro e meio, só para o piloto saber a que profundidade o amostrador estava.

O colapso encontrou o lençol freático 5:12

De onde vinha aquela água? Não era chuva acumulada. Era água subterrânea — chuva que tinha se infiltrado na rocha ao longo de décadas, formando um lençol freático. E aqui está o número que fecha o argumento: esse lençol fica a aproximadamente quinhentos metros abaixo da superfície original do solo. O colapso, quatrocentos e oitenta e oito metros, quase alcançou essa marca sozinho. Por isso a água nunca tinha aparecido antes: o fundo da cratera nunca tinha descido tão perto do lençol. E é por isso que medir isso importa: se a água tivesse encontrado rocha ainda quente, como em mil novecentos e vinte e quatro, o resultado podia ter sido outra sequência de explosões, não um lago calmo. O monitoramento existe, em parte, para saber qual dos dois cenários está em curso.

O lago cresce, 75 cm por semana 6:11

A partir daí, o lago só cresceu — cerca de setenta e cinco centímetros por semana. Dois metros em agosto de dois mil e dezenove. Mais de quarenta metros em julho de dois mil e vinte. Quarenta e seis em outubro. Sempre entre setenta e oitenta e cinco graus na superfície — quente demais para nadar, frio demais, para um vulcão, para evaporar sozinho.

A lava volta, a água vira vapor 6:35

No dia vinte de dezembro de dois mil e vinte, por volta das nove e meia da noite, o lago tinha cinquenta e um metros de profundidade — o maior que chegou a ser. E, naquela mesma noite, uma nova erupção começou dentro da própria cratera. A lava alcançou a água. Em cerca de noventa minutos, o lago inteiro virou vapor.

O lago de lava que veio depois 6:58

No lugar da água, veio lava — e ela também subiu rápido. Cento e setenta e seis metros de lava acumulada, cinco dias depois. Duzentos e doze metros, um mês e meio depois disso. O mesmo poço que tinha guardado água por dezessete meses agora guardava fogo.

Hoje: erupções em episódios 7:22

E o vulcão não parou aí. Desde dois mil e vinte e um, Kīlauea já teve várias erupções dentro da própria cratera. A partir do fim de dois mil e vinte e quatro, elas viraram uma sequência episódica: o cume infla, uma fonte de lava dispara por horas, e depois pausa, enquanto o reservatório enche de novo por baixo. Já passou de cinquenta episódios, um deles com uma fonte de trezentos e catorze metros de altura. A mesma cratera. Outro estado, de novo.

Uma sequência de estados 7:55

Halemaʻumaʻu não é um lugar fixo. É uma sequência de estados: cratera pequena com lago de lava, poço vazio e profundo, lago de água que ninguém esperava, lago de lava outra vez. Duas vezes, o mesmo gatilho — o rift drenando o cume — produziu resultados opostos, e a diferença estava na temperatura da rocha lá embaixo. No próximo episódio, o vizinho de Kīlauea: Mauna Loa, o vulcão mais maciço da Terra — tão pesado que afundou o próprio assoalho do oceano por baixo dele.

Descrição e fontes

Halemaʻumaʻu, a cratera dentro da caldeira do cume de Kīlauea, era um lugar modesto até 2018: cerca de 870 por 900 metros, 85 metros de profundidade, com um lago de lava ativo desde 2008. Em maio daquele ano, a erupção que abriu fissuras na Zona de Rift Leste Inferior — destruindo mais de 700 estruturas e cobrindo 35 quilômetros quadrados de lava nova — estava drenando, por baixo da terra, o mesmo reservatório de magma que sustentava o cume. Sem apoio, o chão cedeu em 62 colapsos discretos, cada um equivalente a um terremoto de magnitude cinco ou mais, em média um a cada 28 horas. Não era a primeira vez: em 1924, o mesmo gatilho — um enxame de terremotos no rift drenando o lago de lava do cume — provocou mais de 50 explosões a vapor, quando água subterrânea encontrou rocha ainda quente. Em 2018 o resultado foi mais silencioso: quando a sequência parou, em 2 de agosto, o fundo tinha afundado 488 metros e o diâmetro mais que dobrado. Somando essa queda aos 85 metros que já existiam, o novo fundo ficava a quase 600 metros abaixo da borda original — e a cerca de 500 metros abaixo da superfície original do solo fica o lençol freático da região. Foi esse encontro que explicou a mancha verde de 2019: água subterrânea, não chuva, enchendo um poço que finalmente tinha alcançado a água. O lago cresceu quase um metro por semana, entre 70 e 85 graus Celsius, até 51 metros de profundidade em dezembro de 2020 — e sumiu em cerca de 90 minutos quando uma nova erupção, na mesma cratera, vaporizou tudo. No lugar da água veio lava, que também subiu rápido, e desde o fim de 2024 o vulcão entra em erupção em episódios distintos — mais de 50 até agora, um deles com fonte de 314 metros. A forma de Halemaʻumaʻu não é um lugar fixo: é uma sequência de estados, cada um o registro de um evento que aconteceu por baixo, fora de vista.

FONTES

Vídeo: U.S. Geological Survey, via Wikimedia Commons (domínio público; créditos em tela).

Fotografia da capa: quadro extraído do vídeo USGS de 26/8/2018 (Wikimedia Commons, domínio público).

Os diagramas são desenhados em código a partir dos números citados — nenhum é imagem gerada.

O corte transversal do poço é reconstrução declarada: nenhuma fonte publica um perfil medido do fundo da cratera. A soma 85 m + 488 m = 573 m é nossa.

#geologia #ciência #vulcão