Lago Vanda: o lago que afogou uma estação na Antártida
Em 1969 a Nova Zelândia inaugurou uma estação de pesquisa na margem de um lago num vale da Antártida onde cai menos de dez centímetros de neve por ano. Vinte e cinco anos depois ela foi desmontada porque o lago chegou nela. Desde a primeira medição, em 1968, a superfície do lago Vanda subiu 14,8 metros.
Capítulos
- 0:00 Uma estação desmontada por um lago
- 0:36 14,8 metros num deserto
- 1:11 Os Vales Secos de McMurdo
- 1:40 Seco por vento, não por falta de gelo
- 2:15 O gelo que alimenta os rios
- 2:44 O rio que corre para dentro do continente
- 3:19 Um lago sem saída
- 3:48 Uma conta de duas parcelas
- 4:20 17 cm por inverno, 34 por verão
- 4:51 Quem mede, e como
- 5:22 O verão de 21,7 milhões de m³
- 5:57 A margem chegando
- 6:28 A conta de Peter Foster, 1986
- 7:03 A previsão contra a régua
- 7:44 O fim da estação Vanda
- 8:17 Trinta metros no livro, 9,9 na régua
- 8:48 A mesma água levanta menos
- 9:26 Um lago que soma
- 9:57 Forma, não chuva
Transcrição
Uma estação desmontada por um lago 0:00
Isso é uma estação de pesquisa, em mil novecentos e setenta e cinco. Ela fica na margem de um lago, num vale da Antártida. A Nova Zelândia a inaugurou em nove de janeiro de mil novecentos e sessenta e nove. Vinte e cinco anos depois, ela foi desmontada peça por peça e levada embora. O motivo foi o lago. Ele subiu até ela. Em dois mil e vinte e um, o chão onde a estação ficava já estava quase todo debaixo d'água. E isso aconteceu num dos lugares mais secos do planeta.
14,8 metros num deserto 0:36
O lago se chama Vanda. Na primeira medição, em novembro de mil novecentos e sessenta e oito, a superfície dele marcava oitenta e um vírgula seis metros no marco de referência local. Na medição mais recente, em janeiro de dois mil e vinte e seis, marcava noventa e seis vírgula quatro. Catorze vírgula oito metros de subida. É a altura de um prédio de cinco andares. Só que nesse vale a neve de um ano inteiro não passa de dez centímetros, e quase nada dela chega a derreter. A água não vem do céu. Ela vem da forma do vale.
Os Vales Secos de McMurdo 1:11
O vale fica nos Vales Secos de McMurdo, na costa oeste do estreito de McMurdo, do lado do mar de Ross. É a maior área sem gelo de todo o continente antártico: mais de quatro mil quilômetros quadrados de chão exposto, cascalho, rocha e lagos congelados. A temperatura média do ano fica perto de vinte graus negativos. E a primeira pergunta que o lugar faz não é sobre o lago. É por que existe chão à mostra num continente coberto de gelo.
Seco por vento, não por falta de gelo 1:40
A resposta são as montanhas. A cadeia Transantártica sobe milhares de metros e funciona como uma barragem: ela segura o gelo que escoa do platô polar. Os vales ficam do lado de baixo dessa barragem. O que cai do céu ali é pouco, menos de dez centímetros de neve por ano. E o vento que desce do platô é seco, e muitas vezes chega esquentando o ar em vinte, trinta graus. Quase nada da neve que cai chega a virar água corrente. Um lugar seco por vento, não por falta de gelo.
O gelo que alimenta os rios 2:15
Porque o gelo continua lá. Ele está pendurado nas bordas. Geleiras descem das montanhas até o fundo dos vales. No verão, com sol vinte e quatro horas por dia, a superfície dessas geleiras derrete um pouco. É isso que alimenta os rios daqui. Não é neve derretida: a neve responde por menos de um por cento da água que corre nesses rios. É gelo de geleira, que derrete por algumas semanas e fica parado pelo resto do ano.
O rio que corre para dentro do continente 2:44
No vale de Wright, essa água forma o rio Ônix. Ele nasce no lago Brownworth, ao pé da geleira Wright Inferior, e corre cerca de trinta quilômetros até o lago Vanda. É o rio mais longo da Antártida. E ele corre no sentido que parece errado. A geleira de onde ele sai ocupa a boca do vale, o lado voltado para o mar. O rio vira as costas para o mar e corre para dentro do continente, na direção oeste. Na média, a água passa pela régua perto do lago durante cinquenta e oito dias por verão. Depois some.
Um lago sem saída 3:19
E no fim do caminho não há saída nenhuma. O lago Vanda é uma bacia fechada. O único abastecimento que conta é o Ônix. Não existe rio saindo do lago. E também não há infiltração: o solo em volta e o próprio fundo estão congelados o ano inteiro, então nenhuma água escapa por baixo. Sobra uma única porta de saída. A capa de gelo que cobre o lago o ano todo perde água para o ar, passando direto de gelo para vapor.
Uma conta de duas parcelas 3:48
Isso transforma o nível do lago numa conta de duas parcelas. No verão, o rio põe água. O ano inteiro, o vento e o sol tiram água do gelo. Não existe terceira parcela. Então, se o lago sobe, é porque a entrada ganhou da saída. E as duas coisas que permitem fazer essa conta, a vazão do rio e a altura do lago, foram medidas por mais de cinquenta anos. Os dados brutos das duas séries são públicos, e a conta deste episódio foi refeita a partir deles.
17 cm por inverno, 34 por verão 4:20
Comece pela saída. Entre janeiro e novembro o rio está parado, então tudo que muda no nível nesse intervalo é perda. Nos trinta e sete invernos em que houve medição nas duas pontas, no mesmo marco de referência, o lago desceu tipicamente dezessete centímetros. Esse é o preço fixo de cada ano. Um verão típico devolve trinta e quatro. Então um ano comum fecha com uns dezessete centímetros a mais. Só que catorze metros não se explicam só com anos comuns.
Quem mede, e como 4:51
Esse registro existe porque alguém foi lá medir, todo verão. A régua do rio junto ao lago começou a funcionar em mil novecentos e sessenta e nove, com o programa antártico da Nova Zelândia. A partir de mil novecentos e noventa e quatro, o programa americano de pesquisa ecológica de longo prazo assumiu. É o registro ambiental mais longo dos Vales Secos. E o nível do lago é medido do jeito mais simples que existe: um tripé, um nível óptico, uma régua e um marco fixo de referência.
O verão de 21,7 milhões de m³ 5:22
E a série do rio mostra que não existe verão típico que valha como regra. A mediana é de cerca de dois milhões de metros cúbicos por verão. No verão de mil novecentos e noventa e um para noventa e dois, o rio correu dezoito dias e levou oitenta e oito mil. Em mil novecentos e setenta e oito, nenhuma água chegou ao lago. E no verão de dois mil e um para dois mil e dois, o Ônix levou vinte e um vírgula sete milhões. Mais de dez verões medianos de uma vez só. Naquele verão, em oito semanas, o lago subiu mais de dois metros e meio.
A margem chegando 5:57
Somada, a entrada ganhou da saída quase todo ano desde que a estação abriu. Em janeiro de mil novecentos e oitenta e sete, o lago já estava sete metros acima da primeira medição. Para quem voltava à estação a cada verão, não era preciso régua: a margem estava visivelmente mais perto dos prédios. Eles quebravam o gelo do lago para buscar água de beber, e o buraco ficava cada ano mais perto de casa. E no relatório de uma temporada, alguém resolveu fazer a conta.
A conta de Peter Foster, 1986 6:28
No verão de mil novecentos e oitenta e cinco para oitenta e seis, o chefe da estação, Peter Foster, escreveu três números no relatório. Desde mil novecentos e oitenta e um, o lago subia em média cinquenta e dois centímetros por ano. O freezer e a torre do gerador ficavam na cota de noventa e um metros, três vírgula oito metros acima da água. Dividindo uma coisa pela outra, a água chegaria ao freezer em mil novecentos e noventa e três. Sete anos. E ele fechou dizendo que, a menos que o clima começasse a esfriar, a inundação era inevitável.
A previsão contra a régua 7:03
E dá para conferir a conta dele contra a série. No verão de mil novecentos e noventa para noventa e um, o rio levou dez milhões de metros cúbicos, e o lago subiu um vírgula quatro metro numa temporada só. Em janeiro de mil novecentos e noventa e dois, a medição marcou noventa e um vírgula três. A água tinha passado da cota do freezer. A previsão de Foster errou por um ano, e errou para o lado de dar mais tempo do que havia. Repare também que o marco dele e o da série são o mesmo: os três vírgula oito metros acima da água de mil novecentos e oitenta e seis caem exatamente nos noventa e um.
O fim da estação Vanda 7:44
A decisão de fechar Vanda veio no começo dos anos noventa. A limpeza do terreno começou na temporada de noventa e três para noventa e quatro, e as últimas estruturas saíram na seguinte. No lugar, duas cabanas pequenas foram montadas do outro lado do lago, sem ocupação permanente. Os historiadores que reconstituíram o caso nos arquivos lembram que o lago não foi o único motivo: houve política, produção científica em queda e a chegada de regras ambientais novas para a Antártida. Mas o lago era o motivo que dava para medir.
Trinta metros no livro, 9,9 na régua 8:17
E é justamente o motivo mensurável que cresce quando a história é recontada. Um livro de história ambiental de dois mil e sete escreveu que o lago vinha subindo cerca de um metro por ano havia trinta anos. Isso dá trinta metros. O levantamento topográfico diz outra coisa. Quando a estação saiu, em janeiro de mil novecentos e noventa e cinco, a subida acumulada desde a primeira medição era de nove vírgula nove metros. É um aumento enorme. Só não é trinta.
A mesma água levanta menos 8:48
E há um detalhe que só aparece quando as duas séries são postas lado a lado. Divida a água que entrou em cada verão grande pela subida daquele mesmo verão. Até mil novecentos e noventa e um, cada milhão de metros cúbicos levantava o lago cerca de quinze centímetros. A partir de dois mil e um, cerca de nove e meio. O rio não mudou de natureza. Quem mudou foi o lago. Quanto mais ele sobe, mais largo fica, e cada centímetro de altura passa a custar mais água. Essa é a forma do lugar, escrita no próprio registro.
Um lago que soma 9:26
Então o nível do Vanda não é só uma altura. É uma soma. Cada verão quente o bastante para derreter as geleiras está somado ali. Cada ano de vento e de sol está subtraído. E a série do rio guarda um detalhe a mais. Uma análise publicada pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos encontrou temporadas de fluxo começando mais cedo e ficando mais longas, sem uma tendência clara no volume total. O lago não diz por quê. Ele só não esquece.
Forma, não chuva 9:57
Um dos lugares mais secos da Terra afogou uma estação de pesquisa. Não por excesso de chuva, nem por gelo derretendo em massa. Por forma: um vale sem saída, um rio que corre para dentro e um lago que só sabe somar. No próximo episódio a gente vai a um lugar que também é fundo de lago, e que ficou plano demais. O Salar de Uyuni, na Bolívia: nove mil quilômetros quadrados de sal com menos de um metro de relevo. Tão plano que serviu de régua para calibrar um satélite. E o pouco relevo que ele tem acompanha a gravidade, como a superfície do mar.
Descrição e fontes
Os Vales Secos de McMurdo são a maior área sem gelo da Antártida: as montanhas Transantárticas seguram o gelo do platô e o vento seco não deixa a pouca neve virar água. O que alimenta os rios é o derretimento de verão das geleiras. O rio Ônix, o mais longo do continente, nasce numa geleira na boca do vale Wright e corre cerca de 30 km para dentro do continente até o lago Vanda — uma bacia fechada, sem rio de saída e com o fundo em permafrost, que só perde água pela sublimação da capa de gelo. O nível do lago é, portanto, a soma dos verões menos a dos invernos. Este episódio refaz a conta a partir das duas séries brutas do McMurdo Dry Valleys LTER (CC BY 4.0): um inverno típico tira 17 cm, um verão típico põe 34, e o verão de 2001-02 levou 21,7 milhões de m³ e subiu o lago 2,57 m em oito semanas. Confere a previsão que o chefe da estação Vanda escreveu em 1986 — a água chegaria à cota do freezer em 1993; a régua marcou 91,29 m em janeiro de 1992. E mostra a forma da bacia escrita no registro: o mesmo milhão de metros cúbicos que levantava o lago ~15 cm até 1991 levanta ~9,5 cm a partir de 2001, porque o lago fica mais largo conforme sobe.
FONTES
- McMurdo Dry Valleys LTER — Lake level surveys in the McMurdo Dry Valleys, Antarctica (knb-lter-mcm.68.15). CC BY 4.0. https://portal.edirepository.org/nis/mapbrowse?scope=knb-lter-mcm&identifier=68
- Gooseff M.N., McKnight D.M. — Daily summarized seasonal measurements of discharge, water temperature, and specific conductivity from the Onyx River at Lake Vanda, McMurdo Dry Valleys, Antarctica (1969-2023, ongoing) (knb-lter-mcm.9122.6). CC BY 4.0. https://portal.edirepository.org/nis/mapbrowse?scope=knb-lter-mcm&identifier=9122
- Gooseff M.N., McKnight D.M., Doran P.T., Lyons W.B. (2007). Trends in discharge and flow season timing of the Onyx River, Wright Valley, Antarctica since 1969. USGS Open-File Report 2007-1047, SRP 088. https://pubs.usgs.gov/of/2007/1047/srp/srp088/of2007-1047srp088.pdf
- Howkins A., Chignell S., Fountain A. (2021). Vanda Station, Antarctica: a biography of the Anthropocene. Journal of the British Academy 9(s6): 61-89. https://doi.org/10.5871/jba/009s6.061
- Wharton R.A. (1993). McMurdo Dry Valleys: A Cold Desert Ecosystem. LTER Network News 14(1). https://news.lternet.edu/Article1745.html
- Clow G.D., McKay C.P., Simmons G.M., Wharton R.A. (1988). Climatological observations and predicted sublimation rates at Lake Hoare, Antarctica. Journal of Climate 1: 715-728.
- Nylen T.H., Fountain A.G., Doran P.T. (2004). Climatology of katabatic winds in the McMurdo dry valleys, southern Victoria Land, Antarctica. JGR 109, D03114. https://doi.org/10.1029/2003JD003937
- McMurdo Dry Valleys LTER — Overview. https://mcm.lternet.edu/overview/
PRANCHAS DE ACERVO — documentos em domínio público, com autor, acervo e licença.
- Vanda Station 1975 01 - Wikimedia Commons | Public domain
- U.S. Department of State from United States - 2016-11-10 22:22 - Wikimedia Commons | Public domain
- Josh Landis, NSF - 1999 - Wikimedia Commons | Public domain
- Elaine Hood, NSF - 2016-12-01 18:36:10 - Wikimedia Commons | Public domain
- A. Leavitt - 1974 - Wikimedia Commons | Public domain
- Vanda Station 1975 03 - Wikimedia Commons | Public domain
- Lake Vanda ice drill 1973–1974 - Wikimedia Commons | Public domain
- Warren B. Hamilton - between 1958 and 1959 - Wikimedia Commons | Public domain
- Warren B. Hamilton - between 1958 and 1959 - Wikimedia Commons | Public domain
Fotografias: Wikimedia Commons — domínio público (NSF/USAP, Warren B. Hamilton, U.S. Department of State; créditos em tela).
Os diagramas são desenhados em código a partir dos números citados — nenhum é imagem gerada.
Os valores de nível do lago e de vazão do rio foram recalculados a partir das séries brutas do McMurdo Dry Valleys LTER (CC BY 4.0).