Glacier Bay: 80 km de gelo recuaram e deixaram um relógio
Em 1794 um navio inglês passou por esta costa do Alasca e o capitão anotou o que via: não havia baía nenhuma, havia uma parede de gelo. Hoje, no lugar exato daquela parede, há mais de cem quilômetros de mar aberto — e cada metro desse recuo tem data.
Capítulos
- 0:00 Em 1794 não havia baía nenhuma
- 0:23 O único lugar onde deu para conferir
- 0:45 George Vancouver, 1794
- 1:10 A espessura daquela tampa
- 1:36 1879: Muir encontra 48 milhas de recuo
- 1:57 O que a geleira deixa para trás
- 2:24 Uma régua com o ano escrito
- 2:44 1916: William Cooper marca as parcelas
- 3:06 O caminho que se esperava ver
- 3:31 Por que o amieiro é o mecanismo
- 4:02 1995: o teste que faltava
- 4:17 850 árvores, anel por anel
- 4:40 58%: a distância até a semente
- 5:07 Não é o relógio, é a vizinhança
- 5:26 Não existe um caminho
- 6:00 Cem anos nos mesmos quadrados de chão
- 6:18 Onde o salgueiro pegou, a picea não entrou
- 6:44 Quem chegou primeiro
- 7:06 A porta que se fecha atrás
- 7:35 De volta a Indiana
- 7:57 A pergunta obrigatória
- 8:13 Como levar isso para qualquer paisagem
- 8:30 Próximo: a floresta que guarda a própria data numa cicatriz
Transcrição
Em 1794 não havia baía nenhuma 0:00
Em mil setecentos e noventa e quatro, um navio inglês passou por esta costa do Alasca e o capitão anotou o que via. Não havia baía nenhuma. Havia uma parede de gelo. Hoje, no lugar exato daquela parede, há mais de cem quilômetros de mar aberto. E cada metro desse recuo tem data.
O único lugar onde deu para conferir 0:23
No episódio passado a gente viu uma ideia: que dá para ler tempo numa paisagem olhando a distância entre as coisas. Uma fileira de dunas vira uma linha do tempo. O problema é que essa leitura supõe que todos os pedaços começaram iguais, e ninguém tinha como conferir. Este episódio é sobre o único lugar do mundo onde deu para conferir.
George Vancouver, 1794 0:45
George Vancouver, mil setecentos e noventa e quatro. Ele estava mapeando a costa noroeste da América com a precisão obsessiva que a Marinha exigia. No ponto onde hoje fica a entrada de Glacier Bay, a carta dele mostra uma reentrância rasa e uma geleira gigantesca estendendo-se até o horizonte. Ele não estava fazendo ciência do clima. Ele estava desenhando onde o navio podia passar.
A espessura daquela tampa 1:10
E vale medir o que ele desenhou. Segundo o Serviço de Parques, aquela geleira tinha mais de mil e duzentos metros de espessura. Mais de trinta quilômetros de largura. E se estendia por mais de cento e sessenta quilômetros, até a cordilheira lá atrás. Não era uma geleira de cartão-postal. Era uma tampa. E é isso que torna o que veio depois difícil de acreditar.
1879: Muir encontra 48 milhas de recuo 1:36
Oitenta e cinco anos depois, em mil oitocentos e setenta e nove, John Muir foi ao mesmo lugar. E o lugar não estava lá. Segundo o Serviço de Parques dos Estados Unidos, Muir encontrou o gelo recuado quarenta e oito milhas baía adentro. São quase oitenta quilômetros que a parede andou para trás no intervalo de uma vida humana.
O que a geleira deixa para trás 1:57
Pare um segundo no que isso significa. Quando uma geleira recua, ela não deixa uma paisagem velha atrás dela. Ela deixa rocha nua. Zero. Nada vivo, nada de solo. E como o recuo foi mapeado com datas, cada faixa de terreno da baía tem uma idade. Uma idade que não foi inferida de nada. Foi anotada por escrito, na hora, por gente que estava ali.
Uma régua com o ano escrito 2:24
É um presente absurdo para quem estuda paisagem. Em Indiana, a gente lia a fileira de dunas e chamava a ordem de tempo. Aqui, a ordem já vem com o ano. A baía inteira é uma régua de duzentos e poucos anos, com as marcas escritas por terceiros que não faziam a menor ideia do uso que a gente ia dar.
1916: William Cooper marca as parcelas 2:44
Em mil novecentos e dezesseis, um botânico chamado William Cooper fez a coisa mais óbvia e mais rara que existe. Ele foi até lá e marcou parcelas fixas no chão. Quadrados de terreno, com a posição registrada, para serem visitados de novo depois. Aquelas parcelas viraram a rede mais antiga do mundo de acompanhamento de sucessão primária.
O caminho que se esperava ver 3:06
E o caminho que se esperava ver ali é o irmão do que Cowles descreveu nas dunas. Primeiro rocha nua. Depois musgo e plantas rasteiras. Depois o amieiro, que é um arbusto capaz de fixar nitrogênio e portanto de fabricar solo. Depois a picea. E, no fim, a floresta fechada. Uma sequência, na ordem, com data em cada degrau.
Por que o amieiro é o mecanismo 3:31
E o amieiro é o mecanismo aqui, do mesmo jeito que o capim era nas dunas. Rocha recém-descoberta por geleira não tem nitrogênio aproveitável. Sem nitrogênio, quase nada cresce. O amieiro resolve isso por conta própria: ele abriga bactérias nas raízes que fixam nitrogênio do ar. Quando as folhas dele caem e apodrecem, elas deixam no chão exatamente o que faltava. Ele não é um degrau da escada. Ele é quem constrói o degrau seguinte.
1995: o teste que faltava 4:02
Em mil novecentos e noventa e cinco, Christopher Fastie publicou na revista Ecology o teste que faltava. Em vez de olhar dez lugares de idades diferentes e supor que um vira o outro, ele foi ler o que aconteceu dentro de cada lugar, um por um.
850 árvores, anel por anel 4:17
O instrumento dele foi o anel de crescimento. Cada árvore guarda no próprio tronco o ano em que germinou e o ritmo com que cresceu desde então. Fastie leu oitocentas e cinquenta árvores, em dez sítios de idades diferentes, e reconstruiu a história real de cada um. Não a história que a posição no mapa sugeria. A que estava escrita na madeira.
58%: a distância até a semente 4:40
E aqui está o número deste episódio. Pegue a distância de cada sítio até a fonte de semente de picea mais próxima, na época em que o gelo saiu dali. Ela explica até cinquenta e oito por cento da variação entre os sítios no estabelecimento dessa árvore. Cinquenta e oito por cento. Isso não é ruído. Isso é quase o mecanismo inteiro.
Não é o relógio, é a vizinhança 5:07
Repare no que esse número está dizendo. O que mais explica a diferença entre dois pedaços de terreno não é a idade deles. É quão longe estava a semente no dia em que o gelo liberou o chão. Não é o relógio. É a geografia da vizinhança no instante em que a corrida começou.
Não existe um caminho 5:26
E o resultado disso é que não existe um caminho. Existem caminhos. Os três sítios mais antigos da baía foram descobertos antes de mil oitocentos e quarenta. E eles seguiram uma rota diferente de todos os mais novos. Picea entrando cedo. Presença de outra conífera que os novos não têm. E o amieiro nunca sendo o dono do lugar. Se você tivesse enfileirado esses sítios por idade e chamado a fila de sequência, teria descrito uma história que não aconteceu.
Cem anos nos mesmos quadrados de chão 6:00
E tem o desfecho, que só chegou em dois mil e dezessete. Uma equipe reencontrou as parcelas de Cooper e mediu de novo, cem anos depois da primeira medição. Cem anos nos mesmos quadrados de chão. Não é espaço trocado por tempo. É tempo mesmo.
Onde o salgueiro pegou, a picea não entrou 6:18
E o que eles encontraram foi variedade. Parcelas da mesma idade, no mesmo lugar, com composição diferente, cobertura diferente e solo diferente. Onde o salgueiro se instalou primeiro, a picea simplesmente não entrou. Não entrou em cem anos. E as parcelas mais perto da boca da baía, ou seja mais perto de onde havia semente, foram as mais ricas em espécies o século inteiro.
Quem chegou primeiro 6:44
Então o mecanismo deste episódio tem um nome pouco glamouroso: quem chegou primeiro. A ordem de chegada depende da distância até a semente. E essa distância depende de onde estava a floresta velha no dia em que aquele chão apareceu. Depois disso, quem chegou primeiro muda o solo, e o solo mudado decide quem consegue chegar depois.
A porta que se fecha atrás 7:06
E repare no laço que se fecha aí. Quem chega primeiro muda o solo. No estudo de dois mil e dezessete, o acúmulo de solo aparece ligado à espécie que domina a parcela. E as parcelas dominadas por salgueiro ficaram com menos nitrogênio no total. Ou seja: o primeiro morador não só ocupa o lugar. Ele reescreve as regras para quem vier depois. Isso não é uma escada. É uma porta que se fecha atrás de quem entrou.
De volta a Indiana 7:35
Agora leve isso de volta para Indiana. Duas dunas vizinhas, com vegetação diferente. A leitura fácil diz: uma é mais velha. A leitura de Glacier Bay diz: talvez uma estivesse mais perto de uma semente no dia em que a areia parou de se mexer. As duas leituras dão a mesma foto e histórias diferentes.
A pergunta obrigatória 7:57
Isso não quer dizer que a leitura da paisagem morreu. Quer dizer que ela ganhou uma pergunta obrigatória, e a pergunta é curta: esses pedaços começaram iguais? Se você não sabe, o que você tem é uma hipótese boa, não uma linha do tempo.
Como levar isso para qualquer paisagem 8:13
E dá para levar isso para qualquer paisagem. Da próxima vez que alguém apontar dois lugares e disser que um é o futuro do outro, faça a pergunta. Às vezes a resposta existe, está numa carta náutica de mil setecentos e noventa e quatro, e a resposta é não.
Próximo: a floresta que guarda a própria data numa cicatriz 8:30
No próximo episódio, uma floresta que guarda a própria data de um jeito ainda mais direto. Não numa carta, não num anel de crescimento comum: numa cicatriz. Árvores de sequoia atravessam incêndio e registram cada um deles na madeira, com ano. E quando alguém finalmente leu essas cicatrizes em série, descobriu que a floresta que a gente foi ensinado a proteger tem a forma errada.
Descrição e fontes
O episódio passado mostrou uma ideia: que dá para ler tempo numa paisagem olhando a distância entre as coisas. O problema é que essa leitura supõe que todos os pedaços começaram iguais, e ninguém tinha como conferir. Glacier Bay é o único lugar do mundo onde deu para conferir, porque o recuo do gelo foi mapeado com datas — carta de Vancouver em 1794, diário de Muir em 1879, parcelas permanentes de William Cooper em 1916. Em 1995 Christopher Fastie leu oitocentas e cinquenta árvores em dez sítios e reconstruiu, anel por anel, o que aconteceu dentro de cada um. A distância até a fonte de semente mais próxima explica até 58% da variação entre os sítios. Não existe um caminho: existem caminhos, e o que decide qual deles um pedaço de terreno segue não é principalmente a idade dele.
FONTES
- Fastie, C. L. (1995). Causes and Ecosystem Consequences of Multiple Pathways of Primary Succession at Glacier Bay, Alaska. Ecology 76(6): 1899-1916. https://esajournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.2307/1940722
- Buma, B. et al. (2017). A foundation of ecology rediscovered: 100 years of succession on the William S. Cooper plots in Glacier Bay, Alaska. Ecology 98(6). https://esajournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/ecy.1848
- National Park Service — Glacier Bay, People (Vancouver em 1794 e as 48 milhas de recuo até 1879). https://home.nps.gov/glba/learn/historyculture/people.htm
- National Park Service — The Cooper Succession Plots. https://www.nps.gov/articles/cooper-succession-plots.htm
- Johnson, E. A. & Miyanishi, K. (2008). Testing the assumptions of chronosequences in succession. Ecology Letters 11(5): 419-431. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1461-0248.2008.01173.x
PRANCHAS DE ACERVO — documentos em domínio público, com autor, acervo e licença.
- William Downie, 1893 — domínio público — Wikimedia Commons | Public domain
- Samuel Hall Young, Alaska Days with John Muir — domínio público — Wikimedia Commons | Public domain
- Landsat / NASA Goddard Space Flight Center — domínio público — Wikimedia Commons | Public domain
- John Bortniak, NOAA Corps — domínio público — Wikimedia Commons | Public domain
Acervo de vídeo: NPGallery / National Park Service e NASA Scientific Visualization Studio (domínio público).
Fotografias históricas de Muir Glacier: Wikimedia Commons (domínio público).
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