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Ele Cruzou 160 km de Gelo Antártico Sozinho — Sem Saber Que a Própria Comida o Envenenava🚨

4 de setembro de 2026 · Duração 8:34 · Assistir no YouTube

Dezessete de janeiro de mil novecentos e treze. Um homem magro, sozinho, puxa um trenó pela metade sobre o gelo antártico quando o chão simplesmente desaparece debaixo dele.

Transcrição

Dezessete de janeiro de mil novecentos e treze. Um homem magro, sozinho, puxa um trenó pela metade sobre o gelo antártico quando o chão simplesmente desaparece debaixo dele. Ele cai numa fenda escondida sob uma fina camada de neve, e só não despenca no vazio porque o arreio que o prende ao trenó se enroscou na borda gelada. Ele fica pendurado ali, balançando sobre um poço escuro sem fundo visível, os pés batendo no nada, os braços já sem quase nenhuma força depois de semanas sozinho no gelo. Ele não sabe se ainda tem força suficiente pra subir pela própria corda. E não sabe, ainda, que a coisa que quase o matou antes dessa queda não foi o frio, nem a fome — foi a própria comida que o manteve vivo até aqui.

Douglas Mawson era geólogo australiano e liderava a Expedição Antártica Australasiana, entre mil novecentos e onze e mil novecentos e catorze. Em novembro de mil novecentos e doze, ele monta um grupo de três — a Far Eastern Party — pra mapear um trecho nunca explorado da Terra de George Quinto: ele mesmo, o tenente britânico Belgrave Ninnis e o campeão suíço de esqui Xavier Mertz. Levam dezessete cães, dois trenós carregados de comida e equipamento, e um plano de percorrer mais de quinhentos quilômetros de gelo, ida e volta, antes que o verão antártico feche a janela de viagem segura. No fim desse vídeo você vai entender como a coisa que quase matou Mawson veio da própria comida que salvou a vida dele.

Catorze de dezembro de mil novecentos e doze. O grupo já percorreu mais de quinhentos quilômetros rumo ao leste. Ninnis caminha ao lado do trenó da frente — o que carrega a maior parte da comida, a tenda sobressalente e os melhores cães — quando a neve sob os pés dele cede sem aviso nenhum. Não há grito, não há tempo pra reação: o trenó e Ninnis somem juntos dentro de uma fenda de gelo. Mawson e Mertz correm até a beirada e gritam o nome dele por horas. Só respondem o silêncio e, bem lá embaixo, na escuridão, um dos cães ainda vivo, gemendo numa saliência impossível de alcançar. Restam aos dois exploradores comida racionada pra pouco mais de dez dias — e quinhentos quilômetros de gelo entre eles e a base.

Sem o trenó principal, sem metade da comida e sem a tenda sobressalente, Mawson e Mertz tomam a única decisão possível: vão abater os próprios cães de trenó, um a um, à medida que forem ficando fracos demais pra puxar. Não sobra nada aproveitável pra trás — carne, ossos moídos, órgãos, e o fígado de cada animal, cozido junto com o resto numa panela só. Em mil novecentos e doze, fígado é comida de valor, rica e nutritiva, e ninguém tem motivo nenhum pra desconfiar dela. É a única fonte de proteína que os dois têm entre eles e a fome — e nenhum dos dois imagina que aquele prato específico carrega um problema que a ciência da época simplesmente não conhece ainda.

Nos dias seguintes, alguma coisa muda em Xavier Mertz — justamente o mais forte fisicamente dos dois, campeão de esqui, acostumado a puxar trenó por horas sem parar. A pele dele começa a descamar em tiras, sobretudo nas coxas e na virilha. Vêm cólicas fortes, dor de cabeça constante, e depois uma confusão mental que piora a cada dia: ele fica indeciso, esquece o que estava fazendo, se recusa a continuar andando. Dentro de uma barraca pequena demais pra dois homens, no meio do nada, Mawson vê o companheiro se deteriorar sem entender por quê — não existe médico a mil quilômetros de distância, e nada no treinamento dos dois prevê um corpo desmoronando desse jeito.

Oito de janeiro de mil novecentos e treze. Depois de dias cada vez mais confuso, Xavier Mertz tem uma convulsão forte durante a noite e morre poucas horas depois, ainda dentro do saco de dormir. Mawson constrói um pequeno túmulo com blocos de neve e um marcador improvisado, e segue sozinho. Ele está a cerca de cento e sessenta quilômetros da base — uma distância que, no ritmo normal da expedição, levaria menos de dez dias. Só que o corpo dele também já está falhando: a mesma pele que descamou em Mertz começa a descamar nele, e ele não tem mais ninguém pra notar os sintomas primeiro.

Sozinho, Mawson toma uma decisão prática: corta o próprio trenó ao meio, com uma serra, pra reduzir o peso pela metade. Sem os grampos de gelo originais, perdidos com o trenó de Ninnis, ele improvisa aderência parafusando pontas de metal na sola das botas. A cada dia, a pele da planta dos pés descola em camadas inteiras; ele passa lanolina e enfaixa a própria pele de volta no lugar só pra continuar andando. No auge da expedição, o grupo cobria vinte, trinta quilômetros por dia. Sozinho, ferido e cada vez mais fraco, Mawson consegue avançar pouco mais de cinco quilômetros — e ainda assim continua, um passo de cada vez, em direção à base.

Dezessete de janeiro. É o momento do início desse vídeo: o chão cede debaixo dele, e Mawson despenca numa fenda de gelo igual à que engoliu Ninnis um mês antes. Só não cai até o fundo porque o arreio que liga ele ao trenó pela metade emperra na borda gelada. Pendurado pela corda, sobre um poço escuro sem fundo visível, com os braços já quase sem força nenhuma, ele tem alguns segundos pra decidir se ainda vale a pena tentar. Decide que sim. Sobe mão sobre mão, com as mãos já feridas, até conseguir se jogar de bruços na borda gelada. Ele sobreviveu à queda. Mas ainda não sabe por que quase morreu antes dela.

Décadas depois, em mil novecentos e sessenta e nove, dois médicos australianos, Cleland e Southcott, propõem uma explicação: o fígado de cachorro de trenó concentra vitamina A numa quantidade que nenhum outro alimento comum carrega — o suficiente pra ser veneno, não nutrição. Em excesso, a vitamina A causa exatamente os sintomas que os dois exploradores tiveram: pele descamando em tiras, dor de cabeça, confusão mental e, nos casos mais graves, convulsões. Mertz, menor e mais leve que Mawson, teria recebido uma dose proporcionalmente maior da mesma refeição — o que explicaria por que ele piorou primeiro, e mais rápido. É a explicação mais aceita hoje, mas não é unânime: alguns pesquisadores ainda defendem que o frio extremo, a exaustão e o estresse psicológico, sozinhos, bastariam pra explicar tudo. Mawson não sabe de nada disso. Só sabe que precisa continuar andando.

Primeiro de fevereiro de mil novecentos e treze. Mawson finalmente alcança a Aladdin's Cave, um depósito de suprimentos a pouco mais de oito quilômetros da base — tão perto que parece o fim da provação. Uma nevasca forte o prende ali dentro por uma semana inteira, sem poder dar mais um passo. Só em oito de fevereiro ele consegue completar o trajeto e avistar a base ao longe. E é aí que vê: o navio Aurora, que devia levá-lo de volta pra casa, zarpou havia poucas horas, depois de esperar mais de três semanas além do prazo combinado. Seis homens que ficaram pra trás procurando por ele avistam a figura magrela se aproximando e correm em socorro — mas o navio já está longe demais pra dar meia-volta. Mawson vai passar um segundo inverno inteiro, não planejado, na Antártida.

Mawson sobrevive ao segundo inverno junto dos seis homens que ficaram esperando por ele, e só volta à Austrália em dezembro de mil novecentos e treze — mais de um ano depois do previsto. Ele é condecorado cavaleiro pela coroa britânica e se torna um dos nomes mais respeitados da exploração polar, com uma cordilheira e uma estação de pesquisa levando o nome dele até hoje. Cento e sessenta quilômetros de gelo, sozinho, com o próprio corpo se decompondo por dentro sem que ele soubesse a causa, é uma das travessias mais extremas já registradas — e não aconteceu na água nem na selva. Se essa história te prendeu, se inscreve — no próximo vídeo: um mochileiro que passa dezenove dias completamente sozinho na Amazônia boliviana, depois de ser separado do grupo numa correnteza que ninguém viu chegar.